Palácio Rio Negro
Manaus, começo do séc. XX: todos seus requintes modernos – luz elétrica, bonde, cultura contemporânea – borbulham com o ativo (e altamente rentável!) comércio da borracha. Waldemar Scholz, um dos muitos membros da elite do látex, ostenta sua nova moradia: na Rua Municipal, próximo ao Igarapé de Manaus, num local “chic” da cidade, ergue-se a luxuosa mansão, concebida, talvez, num sonho de uma noite de verão equatorial…
Abrem-se os pesados portões de ferro, trazidos provavelmente da Inglaterra ou de sua Alemanha natal: o modelo estilo Art Nouveau mostra que Scholz era um homem que conhecia e escolhia o que de melhor existia na época. Caminhamos alguns passos pelo jardim, salpicado com estatuetas de bronze e luminárias de ferro fundido. A fachada do prédio, imponente e, sem dúvida, original, assenta-se, sólida, em nossa frente.
Vemos aqui uma mistura interessante dos mais variados estilos, trazidos da Europa de começo-de-século. A fachada, originalmente pintada de cinza claro e com seus inúmeros recuos e avanços suas curvas e ângulos retos, se movimenta com um virtuosismo que, a primeira vista, transparece como extravagante. A impressão que temos é de estar diante de uma obra confeitada, um castelo de sonhos, de contos de fada. Este tipo de arquitetura foi muito comum na época nos novos centros de acelerado desenvolvimento econômico, tais como Manaus no período da borracha. A sociedade nouveau-riche que se firmava, junto com sua nova fonte de riqueza criava também uma nova estética cuja expressão primeira seria sempre a arquitetura: as residências particulares, como também as instituições governamentais, comerciais e culturais caracterizavam-se pelo ecletismo, pela mistura às vezes um tanto o quanto desgovernada das mais diversas influências. Kitsch? Sem dúvida! Um “Kitsch” hoje, porém, merecedor de respeito e estudado.
Mas, nosso passeio não termina logo na fachada. Subindo as escadarias externas e entrando pelo saguão, nos deparamos mais uma vez com um imponente – e nem um pouco discreto! – visual. Os assoalhos de acapú e pau amarelo envernizados, contrastam com as paredes pintadas e com os diversos móveis e objetos (muitos deles de origem oriental) estrategicamente colocados no ambiente. A sólida escadaria nos leva até o segundo andar; aqui cada aposento é pintado de uma cor diferente, oscilando do pastel até o berrante: azul claro, azul carregado, lilás, rosa, amarelo, marrom e até mesmo o branco são elegantemente decorados com azulejos e ladrilhos, frizos e lustres da melhores escolas Art Nouveau da Europa.
A parte posterior do prédio é, tanto no térreo, como no andar superior, avarandada com chão de ladrilhos e estrutura de ferro fundido. Aqui, Waldemar Scholz admirava a exuberante vista de seu jardim e o Igarapé de Manaus. Suas “gardenparties” seriam, certamente, as mais “badaladas” de Manaus!
Seu sonho, entretanto, durou pouco. A borracha, levada para plantações cultivadas no Sudeste Asiático pelos ingleses, começava a abalar a economia deste produto aqui na Amazônia. Scholz viu-se forçado a hipotecar sua mansão para saldar dívidas comerciais. Finalmente, em 1914, a Guerra corta por completo o comércio e termina, assim, com o sonho do alemão.
O imóvel é vendido ao Estado; o então governador, Pedro d’Alcantara Bacellar transforma o Palacete Scholz em Palácio Rio Negro e instala ali seu governo.
O palácio está incluído como patrimônio histórico estadual e foi restaurado e adequado em 1997 para a função de Centro Cultural definitivamente implantado em agosto do mesmo ano.
Palácio da Justiça
1905, Avenida Eduardo Ribeiro, esquina com a Rua 10 de Julho: o povo reunido na calçada aguarda ansiosamente o florido movimento da saída dos noivos elegantes e, certamente, herdeiros de abastadas fortunas da borracha.
Grossas muralhas de pedra-jacaré e dois pesados portões de ferro nos impedem uma visão completa do Palácio solidamente elevado pouco acima do nível da rua.
Atravessando a Avenida, subimos as escadarias aos fundos do Teatro Amazonas; daqui avistamos, finalmente, a imponente construção. A fachada é simples e sóbria, condizente com a formalidade das funções que se passam no interior do prédio. Tanto no andar inferior, como no superior, grossas colunas sustentam avarandados; junto com os avanços simétricos das laterais, a fachada se movimenta harmoniosamente.
No térreo, vemos blocos de concretos colocados linearmente a uma seqüência de janelas simples e sem qualquer ornamentação; já na fachada superior, a superfície é decorada com molduras de colunetas, arcos e balaustradas. Uma grande estátua de
Temis, posicionada acima do avarandado superior, identifica o prédio e a função para a qual foi construído.
O estilo aqui tem suas origens no Segundo Império Francês, acrescentado de alguns elementos tardios do neoclássico inglês: os arcos curvos e triangulares das janelas superiores, as colunas dóricas e coríntias dos avarandados.
Passada a euforia dos rituais matrimoniais, a multidão se dispersa e a rua volta ao seu movimento normal. Podemos agora atravessar os portões de ferro, subir os lances de escadas por entre os muros de arrimos e examinar os salões internos do Forum.
O hall de entrada é inteiramente dominado pela monumental escadaria em mármore e madeira. No piso superior, nossos olhares são imediatamente dirigidos ao forro do teto: um minuncioso trabalho de escultura em estuque, com padrões simétricos e floridos; mais abaixo, inúmeros arcos são sustentados por colunas decoradas com estatuetas. Como descreve Mavignier de Castro: “…mobiliado a rigor, a sua decoração interna revela nos mínimos detalhes a severidade, a decência e a discreção exigidas pelo respeito devido à função dos magistrados”. Das janelas do hall superior avistamos a cúpula e a fachada posterior do Teatro Amazonas; ambos, marcos da prosperidade da cidade, formando um conjunto arquitetônico elegante e harmonioso.
Sua construção foi iniciada em 1894, pela firma inglesa Moers & Moreton, na gestão do Governador Eduardo Ribeiro. Dificuldades oriundas de maus orçamentos e direção paralisaram a obra por alguns meses, até que o novo contratado, José Gomes da Rocha, a entregasse concluída em 1900; neste ano o Palácio da Justiça foi inaugurado pelo Governador Ramalho Júnior.
Em seus noventa e nove anos de história, o prédio nunca deixou de exercer suas funções originais. Sofreu algumas reformas que, no entanto, não chegaram a descaracterizá-lo. À excessão do anexo, construído no início da década de 60, sem qualquer afinidade escultural com o Palácio, sua aparência interna e externa permanece praticamente a mesma.
Em todos os tempos e até hoje, em suas salas correm os advogados, o povo, os magistrados, fazem-se os pregões com o leiloeiro a gritar “Dou-lhe uma, dou-lhe duas…”; aqui julgaram-se homens livres e culpados e, desde a entronização de Cristo no Salão do Jurí, diz-se suas decisões presididas por Deus.
A antiga Comissão do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Amazonas o incluiu como projeto prioritário (restauração do prédio principal e demolição do Anexo). Foi restaurado inteiramente, inclusive parte dos salões internos e o mobiliário remanescente. O anexo, porém, não foi demolido.
Mercado Municipal Adolpho Lisboa
A evolução de Manaus e o aumento da população, nos idos de 1855, concorreram para a criação da “Ribeira dos Comestíveis”, sob a egide do 1º. Vice-Presidente da Província, o Bacharel Manoel Gomes Correa de Miranda, que a instalou nas proximidades do local, onde posteriormente foi edificado o primeiro Mercado Municipal. Essa “feira”, a “Ribeira dos Comestíveis”, que vendia carne verde, pirarucu, mixira, arroz, feijão, farinha, frutas e legumes, foi, posteriormente, autorizada a se transferir para a Praça da Imperatriz, atualmente Praça Osvaldo Cruz, pelo então Presidente da Província, João Wilkens de Mattos, Barão de Mariuá, através da Lei nº 191 de 25.05.1869.
Alguns anos depois, nova construção foi edificada à margem esquerda do Rio Negro, à Rua dos Barés, antigo Bairro dos Remédios. As obras desse novo Mercado, foram contratadas em 23 de outubro de 1880, mas somente dois anos depois, em agosto de 1882, é que tiveram início, originalmente ocupando uma área de 5.400m2.
A firma construtora Bakus & Brisbin (de Belém), entregou provisoriamente o prédio construído, a 14.07.1883, constando de um pavilhão de ferro, com 45m de comprimento por 42m de largura. Na realidade, o grande edifício de ferro não passava de um simples galpão, em duas águas, sem nenhuma estética conforme comprovam fotos e documentos da época.
Quanto à data de sua inauguração, existem divergências, pois alguns afirmam que ocorreu a 15 de julho de 1883, enquanto que outros, ter sido a 15 de agosto, desse mesmo ano, mas certo é, que a renda do Mercado foi transferida para O Município, no dia 4 de agosto, donde se conclui que a data mais provável é a primeira.
O grande edifício em ferro, com o “tecto sustentado por 28 colunas desse metal”, onde se encontra gravado em seus fustes (peça principal da coluna entre o capítel e a base) o nome de “Francisc Morton, Engineers, Liverpool”, nos dão a certeza da sua origem inglesa. O calçamento do pavimento é de laje de cantaria de forma retangular e a rua central é calcetada com paralelepípedos. Fora as duas salas principais, foram construídos 20 stands separados entre si por grades de ferro e guarnecidos de balcões de madeira com o tampo superior em mármore, onde são dispostos os produtos para vendagem. A fachada voltada para o Rio Negro era muito mais elaborada, com a finalidade de impressionar, todos aqueles que chegavam a Manaus pela única via de acesso – o rio, possuindo uma estrada e duas edificações em alvenaria de tijolos.
No decorrer de 1890, face ao crescimento da cidade, o Mercado sofreu ampliação com a construção de dois galpões iguais e abertos, nas laterais, com estrutura de madeira e recobertos com telhas de zinco. Poucos anos depois, 1897, o Mercado Público, não mais dispunha das condições higiênicas necessárias a um estabelecimento dessa natureza e o Sr. Intendente Municipal da Capital, determinou por ordem verbal ao engenheiro municipal interino, Dr. João Carlos Antony, para que fizesse uma perícia naquele estabelecimento e as conclusões apontadas pelo referido engenheiro, são as seguintes: “achei este edifício em estado lastimoso quer pelo lado de conservação quer pelo lado da hygiene… Ao primitivo edifício foram-se acrescentando sucessivamente construções sem gosto artístico e em completa desarmonia com os comesinios preceitos de hygiene. Às duas alas acrescentadas…, posteriormente, ainda se acrescentaram, outras pequenas e imundas construções destinadas a diversos e disparatados mysteres, tornando-se assim a construção antiga imprópria ao uso que se destinava…”
Para efetuar os trabalhos de reforma, foi contratado o engenheiro Filintho Santoro, que deu início às obras, construindo a fachada da Rua dos Barés em alvenaria de tijolos, no entanto estas melhorias só vieram a ser concluídas pelo empreiteiro Affonso Campora, nos idos de 1906, ou seja, quase no final do mandato de Adolpho Lisboa. Um ano antes de ser concluída a reforma, 1905, foi o Mercado arrendado para o cidadão Alfredo de Azevedo Alves, tendo este fato sido motivo de ação judicial que se estendeu por mais de duas décadas e graças a isso, foi possível resgatar muito da história sobre a construção desse prédio. Após esses problemas, Alfredo de Azevedo Alves cedeu seus direitos à firma inglesa, “The Manaos Markets and Slaughterhouse Limited” que teria a finalidade exclusiva de fazer cumprir o contrato anterior, ou seja, reforma ou ampliação de acordo com os projetos da Superintendência, além de construírem um Matadouro e realizarem melhoramentos na cidade, em troca receberiam o direito à exploração de Mercado, pelo prazo de 50 anos. Só que o acordo estabelecido não foi cumprido e em 1907, com obras de ampliação não prescritas no acordo com a Superintendência, foi o contrato rompido, tendo esse fato, sido alegado como uma das causa principais.
Além de pesarem suspeitas da participação de elementos da administração pública na referida firma, caracterizando má fé e má destinação do erário público. Nesse mesmo período, foram montados os dois pavilhões de ferro com 360m2 de área útil, afora as projeções dos beirais abertos, encimados por arcos de ferro e recobertos de zinco estampado, sustentados por colunas de ferro, no lado oriental e ocidental do primitivo pavilhão central, onde eram efetivadas as vendas dos já referidos produtos alimentícios. Estas fachadas possuem frontões curvos que acompanham as formas dos arcos da cobertura e ostentam ornatos filigranados, em ferro fundido, com vidros coloridos. Os pavilhões possuem parapeitos de alvenaria em pedra até 1m de altura e sobre estes, sem nenhuma pretensão estética ou mesmo plástica, colunas de ferro, onde e possível ler “Walter Marcfarlane Glasgow” inscrito e que são atestatórios de sua origem escocesa. Outro pavilhão de mesma procedência, porém de componentes arquiteturiais totalmente diversos e que fora construído para a venda de tartarugas (comércio hoje extinto), e fechado por chapas de ferro, possuindo venezianas também de ferro e vidro, com a cobertura de chapas onduladas, em quatro águas, desdobradas, formando um pequeno frontão decorado com ferro fundido e vidro colorido.
Além do corpo principal do prédio, existiam dois pequenos pavilhões de planta octogonal, nas extremidades do “Pavilhão das Tartarugas” e que se presume, seja também de origem escocesa, apesar de não se encontrar nenhuma inscrição visível, em qualquer das chapas ou mesmo nas colunas de ferro, que confirmem sua procedência, no entanto, a comparação com outros trabalhos dessa firma, publicados em catálogos, levaram os estudiosos a comprovarem a sua origem. O primeiro desses pavilhões era destinado ao Fisco, que se encarregava da cobrança dos tributos sobre os produtos oriundos do interior do Estado. Mais tarde esses dois pavilhões (Pará e Amazonas) transformaram-se em “café e botequim”.
Outra peça importante é o velho relógio do frontão da fachada dos Barés, que anteriormente estava localizado na fachada voltada para o Rio Negro, e que continua a regular as atividades do velho mercado.
De modo geral, podemos dizer que a justaposição de construções criou um ecletismo característico da época que, apesar de não se integrarem plasticamente, não seguindo nenhum projeto arquitetônico, não destoam entre si e o mais louvável é que o Mercado Adolpho Lisboa, mantém a finalidade para o qual foi criado, apesar de várias vezes surgirem sugestões para que o mesmo seja transformado em loja de artesanato regional.
A evolução de Manaus e o aumento da população, nos idos de 1855, concorreram para a criação da “Ribeira dos Comestíveis”, sob a egide do 1º. Vice-Presidente da Província, o Bacharel Manoel Gomes Correa de Miranda, que a instalou nas proximidades do local, onde posteriormente foi edificado o primeiro Mercado Municipal. Essa “feira”, a “Ribeira dos Comestíveis”, que vendia carne verde, pirarucu, mixira, arroz, feijão, farinha, frutas e legumes, foi, posteriormente, autorizada a se transferir para a Praça da Imperatriz, atualmente Praça Osvaldo Cruz, pelo então Presidente da Província, João Wilkens de Mattos, Barão de Mariuá, através da Lei nº 191 de 25.05.1869.
Alguns anos depois, nova construção foi edificada à margem esquerda do Rio Negro, à Rua dos Barés, antigo Bairro dos Remédios. As obras desse novo Mercado, foram contratadas em 23 de outubro de 1880, mas somente dois anos depois, em agosto de 1882, é que tiveram início, originalmente ocupando uma área de 5.400m2.
A firma construtora Bakus & Brisbin (de Belém), entregou provisoriamente o prédio construído, a 14.07.1883, constando de um pavilhão de ferro, com 45m de comprimento por 42m de largura. Na realidade, o grande edifício de ferro não passava de um simples galpão, em duas águas, sem nenhuma estética conforme comprovam fotos e documentos da época.
Quanto à data de sua inauguração, existem divergências, pois alguns afirmam que ocorreu a 15 de julho de 1883, enquanto que outros, ter sido a 15 de agosto, desse mesmo ano, mas certo é, que a renda do Mercado foi transferida para O Município, no dia 4 de agosto, donde se conclui que a data mais provável é a primeira.
O grande edifício em ferro, com o “tecto sustentado por 28 colunas desse metal”, onde se encontra gravado em seus fustes (peça principal da coluna entre o capítel e a base) o nome de “Francisc Morton, Engineers, Liverpool”, nos dão a certeza da sua origem inglesa. O calçamento do pavimento é de laje de cantaria de forma retangular e a rua central é calcetada com paralelepípedos. Fora as duas salas principais, foram construídos 20 stands separados entre si por grades de ferro e guarnecidos de balcões de madeira com o tampo superior em mármore, onde são dispostos os produtos para vendagem. A fachada voltada para o Rio Negro era muito mais elaborada, com a finalidade de impressionar, todos aqueles que chegavam a Manaus pela única via de acesso – o rio, possuindo uma estrada e duas edificações em alvenaria de tijolos.
No decorrer de 1890, face ao crescimento da cidade, o Mercado sofreu ampliação com a construção de dois galpões iguais e abertos, nas laterais, com estrutura de madeira e recobertos com telhas de zinco. Poucos anos depois, 1897, o Mercado Público, não mais dispunha das condições higiênicas necessárias a um estabelecimento dessa natureza e o Sr. Intendente Municipal da Capital, determinou por ordem verbal ao engenheiro municipal interino, Dr. João Carlos Antony, para que fizesse uma perícia naquele estabelecimento e as conclusões apontadas pelo referido engenheiro, são as seguintes: “achei este edifício em estado lastimoso quer pelo lado de conservação quer pelo lado da hygiene… Ao primitivo edifício foram-se acrescentando sucessivamente construções sem gosto artístico e em completa desarmonia com os comesinios preceitos de hygiene. Às duas alas acrescentadas…, posteriormente, ainda se acrescentaram, outras pequenas e imundas construções destinadas a diversos e disparatados mysteres, tornando-se assim a construção antiga imprópria ao uso que se destinava…”
Para efetuar os trabalhos de reforma, foi contratado o engenheiro Filintho Santoro, que deu início às obras, construindo a fachada da Rua dos Barés em alvenaria de tijolos, no entanto estas melhorias só vieram a ser concluídas pelo empreiteiro Affonso Campora, nos idos de 1906, ou seja, quase no final do mandato de Adolpho Lisboa. Um ano antes de ser concluída a reforma, 1905, foi o Mercado arrendado para o cidadão Alfredo de Azevedo Alves, tendo este fato sido motivo de ação judicial que se estendeu por mais de duas décadas e graças a isso, foi possível resgatar muito da história sobre a construção desse prédio. Após esses problemas, Alfredo de Azevedo Alves cedeu seus direitos à firma inglesa, “The Manaos Markets and Slaughterhouse Limited” que teria a finalidade exclusiva de fazer cumprir o contrato anterior, ou seja, reforma ou ampliação de acordo com os projetos da Superintendência, além de construírem um Matadouro e realizarem melhoramentos na cidade, em troca receberiam o direito à exploração de Mercado, pelo prazo de 50 anos. Só que o acordo estabelecido não foi cumprido e em 1907, com obras de ampliação não prescritas no acordo com a Superintendência, foi o contrato rompido, tendo esse fato, sido alegado como uma das causa principais.
Além de pesarem suspeitas da participação de elementos da administração pública na referida firma, caracterizando má fé e má destinação do erário público. Nesse mesmo período, foram montados os dois pavilhões de ferro com 360m2 de área útil, afora as projeções dos beirais abertos, encimados por arcos de ferro e recobertos de zinco estampado, sustentados por colunas de ferro, no lado oriental e ocidental do primitivo pavilhão central, onde eram efetivadas as vendas dos já referidos produtos alimentícios. Estas fachadas possuem frontões curvos que acompanham as formas dos arcos da cobertura e ostentam ornatos filigranados, em ferro fundido, com vidros coloridos. Os pavilhões possuem parapeitos de alvenaria em pedra até 1m de altura e sobre estes, sem nenhuma pretensão estética ou mesmo plástica, colunas de ferro, onde e possível ler “Walter Marcfarlane Glasgow” inscrito e que são atestatórios de sua origem escocesa. Outro pavilhão de mesma procedência, porém de componentes arquiteturiais totalmente diversos e que fora construído para a venda de tartarugas (comércio hoje extinto), e fechado por chapas de ferro, possuindo venezianas também de ferro e vidro, com a cobertura de chapas onduladas, em quatro águas, desdobradas, formando um pequeno frontão decorado com ferro fundido e vidro colorido.
Além do corpo principal do prédio, existiam dois pequenos pavilhões de planta octogonal, nas extremidades do “Pavilhão das Tartarugas” e que se presume, seja também de origem escocesa, apesar de não se encontrar nenhuma inscrição visível, em qualquer das chapas ou mesmo nas colunas de ferro, que confirmem sua procedência, no entanto, a comparação com outros trabalhos dessa firma, publicados em catálogos, levaram os estudiosos a comprovarem a sua origem. O primeiro desses pavilhões era destinado ao Fisco, que se encarregava da cobrança dos tributos sobre os produtos oriundos do interior do Estado. Mais tarde esses dois pavilhões (Pará e Amazonas) transformaram-se em “café e botequim”.
Outra peça importante é o velho relógio do frontão da fachada dos Barés, que anteriormente estava localizado na fachada voltada para o Rio Negro, e que continua a regular as atividades do velho mercado.
De modo geral, podemos dizer que a justaposição de construções criou um ecletismo característico da época que, apesar de não se integrarem plasticamente, não seguindo nenhum projeto arquitetônico, não destoam entre si e o mais louvável é que o Mercado Adolpho Lisboa, mantém a finalidade para o qual foi criado, apesar de várias vezes surgirem sugestões para que o mesmo seja transformado em loja de artesanato regional.
Colégio Amazonense D. Pedro II
Surgiu com a designação de Lyceu Provincial Amazonense, através do Regulamento n° 18, de 14 de março de 1869, do Presidente da Província João Wilkens de Mattos, sendo instalado nas dependências do Seminário Episcopal de São José, que à época, localizava-se onde hoje se ergue uma das agências do Banco do Brasil, à Rua (antiga Praça) 15 de Novembro.
Segundo o diretor da Instrucção Pública, “o que se refere à instrucção secundária, cumpria antes de tudo, dar forma e vida ao que de Lyceu tinha apenas o nome e os encargos. Sem organização, sem centro nem direcção, formava elle, com o seminário, uma cousa monstruosa e hybrida, que não era nem seminário, nem Lyceu. Fosse porém o que fosse, estabelecimento de ensino, affirmo-vos que não era de certo. Desliguei-o de todo d’aquelle instituto e dei-lhe uma direcção própria e conveniente”.
Posteriormente funcionou em um sobrado a Rua da Imperatriz, hoje Lobo D’Almada, durante alguns anos, transferindo-se mais tarde para o casarão do Comendador Francisco de Souza Mesquita, situado à Rua da Independência (atual Henrique Antony) esquina com a Rua Comendador Victório, onde estava instalado o Asilo Orfanológico Elisa Souto destinado às meninas órfãs, de onde mais uma vez mudou-se para o prédio da Polícia Militar do Estado, à Praça da Constituição hoje Heliodoro Balbi.
Entretanto, ressentia-se o Curso Secundário de instalações condizentes e dessa forma, o Presidente da Província, Satyro de Oliveira Dias, através da Lei Provincial n° 506 de 4 de novembro de 1880, foi autorizado a mandar construir um edifício que viesse abrigar condignamente os cursos existentes no Lyceu Provincial, dando-lhe as condições exigidas pela Moderna Pedagogia.
Em 25 de março de 1881, foi colocada a pedra fundamental, pelo referido Presidente, sendo a mesma, benta pelo vigário da Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios, Pe. João Rodrigues D’Assumpção, em terreno adquirido à Custódio Pires Garcia e uma parte desapropriada ao Tenente João Sebastião da Silva Lisboa, situado à Rua Municipal, atual Av. 7 de Setembro.
Enquanto se processava a construção do Colégio, os alunos do Lyceu foram transferidos do Prédio da Polícia Militar para um galpão localizado à Praça Roosevelt, ao lado do atual Banco Real, daí, retornando ao casarão, já ocupado anteriormente, lá ficando até o momento em que foram trazidos para o novo prédio construído em alvenaria de pedra e tijolo, com dois pavimentos e um porão em condições de uso, tendo na sua fachada principal, em pedra de cantaria quatro belas colunas além de imponente escadaria.
Este Colégio, recebeu o nome de Gymnasio Amazonense, forjado nos moldes do Colégio Pedro ll, do Rio de Janeiro, se constituindo num “instituto oficial de estudo, secundário, mantido pelo Estado do Amazonas, tendo por fim ministrar e difundir um ensino racional e prático de letras e ciências baseado no método de seriação progressiva… e dar, por meio de disciplina, rigorosa, uma sã e esmerada educação aos alunos, visando assim paralelamente seu desenvolvimento mental e moral”.
Aos cinco dias do mês de setembro do ano de 1886 no salão nobre, o Presidente da Província, Dr. Ernesto Adolpho de Vasconcelos Chaves inaugurou solenemente o novo Colégio. A Ata de inauguração foi assinada pelo Presidente, autoridades, pessoas presentes e pelo escrivão de Obras Públicas, Antônio D’Amorim.
Para este prédio, transferiu-se o “Lyceu, a Escola Normal e a Diretoria da Instrução Pública (1887); o Museu Botânico (1888); a Biblioteca Pública, o Arquivo Público e o Setor de Estatística e Obras Públicas (1889), a Assembléia Legislativa; o Tiro de Guerra e o Grupo Escolar Barão do Rio Branco”. Estas são apenas algumas das instituições que aí funcionaram.
Em 1890, o Governador Augusto Ximenes de Villeroy, extinguiu o Lyceu Amazonense através do Decreto n° 15, de 17 de janeiro e nessa mesma data, com o Decreto n° 16, transformou a Escola Normal em Instituto Normal Superior, regulamentado conforme o Decreto n° 32, de 19 de fevereiro desse mesmo ano.
A 13 de outubro de 1893, com o Decreto n° 34, criava-se o Gymnasio Amazonense, em substituição ao Instituto Normal Superior, sendo a ele anexado o Curso Normal, destinado a preparar professores para as Escolas Públicas.
No decorrer de sua existência, foram criados vários cursos que viriam beneficiar a juventude carente de nosso Estado, tais como o Curso de Agrimensura Lei n° 69 de 24 de agosto de 1894), o Curso Comercial (Decreto n° 213, de 27 de dezembro de 1897). A estes, seguiu-se uma dezena de outros como por exemplo: Pré-médico, Humanidades, Clássico, Científico, Laboratório, Saúde, Patologia Clínica, Acadêmico, etc., sempre buscando acompanhar a própria evolução educacional do País.
A história do Colégio Amazonense Dom Pedro II, desde sua origem, é assinalada pela afirmação das lutas na busca de um ideal renovador e a razão do entusiasmo da Juventude que de geração em geração, sempre ávida de glórias, sedenta de instrução, vão a caminho de um futuro de respeito e veneração, mesmo nos momentos mais graves de sua vida, com acontecimentos marcados, muitas vezes pela desordem, agressão, como no caso da Revolta de junho de 1915, quando descontentes com o ensino ali ministrado que não satisfazia seus anseios, enfrentando crise moral e material, os alunos num movimento sistematizado de indisciplina, promoveram uma depredação desenfreada, gerando anarquia e terror, forçando o Diretor, os professores e os funcionários “a abandonar o edifício, deixando-o entregue à sanha dos estudantes amotinados”, tendo como resultado o fechamento do Colégio que só retornou às suas atividades normais em março de 1916. Essa Revolta concorreu para que houvesse uma Reforma de Ensino com a elaboração de um novo regimento para o Colégio no qual constava um item renovador que dava responsabilidade aos “pais, tuctores ou protectores dos alumnos pelos delictos que estes pratiquem”, além da recuperação do prédio danificado.
Um outro movimento estudantil de maior vulto e digno de destaque é a famosa Revolução Ginasiana de 30, quando todo o País encontrava-se num estado de agitação e alerta em decorrência dos acontecimentos político-econômicos que conturbavam a nação. Aqui em Manaus, a Polícia Civil imbuída de grandes poderes, perseguia, prendia e espancava os estudantes que faziam comícios e praticavam, muitas vezes, arruaças nos bares, praças e ruas da cidade. Aproveitando-se da situação instável que atravessava o país, estes estudantes iniciaram um movimento contra a Polícia, que culminou com o envolvimento do Exército, finalizando com a rendição desta mesma Polícia e a ocupação do seu prédio pelos jovens revolucionários. O Governador Dorval Porto foi deposto e esses mesmos jovens o escoltaram do Palácio até as dependências do Grande Hotel, onde ficaria hospedado. Foram momentos de glória para a juventude Ginasiana que briosamente tornou parte neste movimento.
Estes são apenas alguns dos inúmeros problemas enfrentados por essa tradicional Instituição de Ensino, que põe a prova a capacidade administrativa de seus dirigentes, como também seu juramento de fé.
O Colégio Amazonense Dom Pedro II, teve, no decorrer de sua longa existência, o seu nome alterado inúmeras vezes, como seja: de Lyceu Provincial para Gymnasio Amazonense e em seguida Gymnasio Amazonense Dom Pedro II (Decreto Interventorial nº 113, de 28 de novembro de 1925 do Dr. Alfredo Sá), em homenagem ao último Imperador do Brasil, Dom Pedro D’Alcântara de Orlleans e Bragança. Através do Decreto nº 46, de 19 de fevereiro de 1938, voltou a chamar-se Gymnasio Amazonense, alguns anos mais tarde, denominado Colégio Estadual do Amazonas (Decreto nº 1007, de 19 de abril de 1943, obedecendo ao Decreto Lei Federal nº 4244, de 9 de abril de 1942 e Portaria Ministerial nº 161-A, de 27 de fevereiro de 1943, era interventor do Amazonas o Dr. Álvaro Botelho Maia). Em 1971, Decreto nº 2064, de 09 de março, o Governador Danilo de Mattos Areosa o transformou em Unidade Educacional Colégio Estadual do Amazonas, em 1975, o Governador Ministro Henoch Reis (Lei nº 1150, de 3 de dezembro), devolve-lhe o nome de Colégio Amazonense Dom Pedro II. O Governador Dr. José Bernardino Lindoso, transforma-o em Unidade Educacional Centro II com a denominação de Escola de 1º e 2º Grau Dom Pedro II (Decreto nº 4870, de 24 de março de 1980). O Governador em exercício, Dr. Paulo Pinto Nery manteve a denominação de Colégio Amazonense Pedro II (Decreto nº 5702, de 17 de julho de 1981). Com o Decreto nº 6248, de 6 de abril de 1982, o Governador Dr. José Bernardino Lindoso denominou-o Colégio Amazonense Dom Pedro II.
Paço Municipal
O imóvel denominado “Paço Municipal”, conhecido pela população como Prefeitura Municipal de Manaus, enfrentou, como qualquer outro bem integrante do Patrimônio Cultural de nosso Estado, inúmeros problemas para que hoje pudesse vir a se constituir num dos exemplares representativos da história de Manaus.
O projeto para a sua construção data de 1865, mas somente oito anos depois é que o terreno foi comprado por cinco contos de réis a José Antônio Carneiro e a sua mulher, a 24 de setembro de 1873, terido sido lavrada a escritura de compra e venda no Cartório do Tabelião Bernardo José de Bessa. Situava-se o mesmo no antigo bairro de São Vicente (onde teve início a cidade de Manaus), com uma área de aproximadamente 1,047 m2, entre as ruas de São Vicente (atual Bernardo Ramos), Rua Municipal (atual Av. 7 de Setembro),Praça da República (atual D. Pedro II) e fundos com terrenos de propriedade particular.
No dia 1º de janeiro de 1874, três meses depois da compra do terreno, às oito horas da manhã, foi lançada a pedra fundamental da futura sede do Paço Municipal, na presença das autoridades constituídas e do povo em geral, no entanto, o acerto das obras só foi realizado vinte e quatro dias depois quando então o Presidente da Câmara, o Vereador Tenente-Coronel José Coelho de Miranda Leão, contratou com Leonardo Antônio Malcher, o metro cúbico da colocação dos alicerces pela quantia de quatorze contos e quatrocentos mil réis.
Inicialmente a construção foi projetada para comportar três andares, todavia, a soma de vários fatores como: por sua localização muito próxima da margem do Rio Negro fazendo com que o terreno, à epoca, não se adequasse a comportar uma estrutura desse porte, sendo que esta situação foi ainda agravada pela precariedade da mão-de-obra, pelas interrupções sucessivas por falta do material, ou mesmo, transferência, tanto de operários quanto do próprio material para outras obras que estavam sendo realizadas em conjunto, como no caso, a Igreja Matriz, além da própria inclemência do tempo fizeram com que a construção ficasse comprometida e colocasse em.risco a própria estrutura do prédio. Em consequência disso, foi constituída uma comissão para realizar uma perícia que comprovasse o real estado do imóvel. Esta comissão foi de parecer que este edifício não poderia suportar nem mesmo o segundo andar, assim sendo, o Presidente da Câmara mandou, através da Portaria de 19 de outubro, demolir as paredes do interior e reduzí-las a elevação necessária para ficar com um só andar. O empreiteiro deu início a demolição nos primeiros dias de dezembro e ao final deste mesmo mês, já estava assentado o travejamento para receber o telhado. A 8 de julho de 1875, o então Presidente da Câmara Municipal, Comendador Clementino José Pereira Guimarães contratou com o Comendador Francisco de Souza Mesquita, a conclusão das obras.
Até a data de sua inauguração, sobre a qual, há bastante divergência, a Municipalidade funcionou precariamente em prédios alugados onde num deles, atualmente, está instalada a Câmara dos Vereadores.
Concluída a obra, entre 1876 e 1878, o Presidente da Câmara, Bacharel Gustavo Adolpho Ramos Ferreira, submete a consideração da mesma, o seguinte:
“O Exmo. Sr. Presidente da Província, Dr. Romualdo de Souza Paes de Andrade, pretende que o novo Paço desta Municipalidade seja alugado para servir de Palácio do Governo; fazendo a Câmara, as acomodações precisas para a moradia do Presidente e Secretário de Governo, por quatro contos de réis o aluguel annual; e entende que, não sendo o estado de finanças desta Câmara muito lizongeiro, pela diminuição de rendas que tem de soffrer com a creação dos dois Municípios de Borba e Manicoré.”
O acordo foi aceito e o prédio da Municipalidade passou a sede do Palácio do Governo, sendo instalado a 1º de janeiro de 1880. Nos anos de 1893 e 1906, o aluguel foi aumentado para sete contos e duzentos mil réis e depois para doze contos de réis, respectivamente. .
No Governo do Sr. Dr. Antônio Constantino Nery, o prédio do Paço Municipal foi aumentado com a “construção de um salão na parte superior, um sobrado de dois andares, duas pequenas habitações no lado Norte, cocheira e cavalariça no lado Sul, todas feitas de alvenaria de pedra e tijolo, cobertas com telhas de barro”, mas, algum tempo depois, 1911, o Sr. Dr. Jorge de Morais autoriza o Sr. Affonso Campora a reconstrução da ala esquerda do prédio, danificada por uma vala aberta pela”Manáos Improvements”, que indenizou pelo prejuizo, ao Município, com a quantia de quarenta e cinco contos de réis.
Em 1917, o médico baiano e Governador do Estado, Dr. Pedro d’ Alcântara Bacellar, arrendou o Palacete Scholz, à av. 7 de Setembro para sede do Governo, adquirindo-o posteriormente, por compra, em 1918 quando recebeu a denominação de Palácio Rio Negro. Com a mudança da sede do Governo, o Superintendente Dr. Antônio Ayres de Almeida Freitas, em 17 de abril de 1917, “dando execução ao acordo feito com o Contencioso Fiscal do Estado, em virtude da autorização contida na Lei nº 882 de 28 de março do referido anno, transfere para este próprio a sede do Governo Municipal”.
A sede do Paço Municipal, de características arquitetônicas neoclássicas, é talvez, uma das mais belas fachadas de Manaus, dentro da elegância do estilo greco-romano. Seu interior, desde sua construção, sofreu reformas e acréscimos que o descaracterizam, sem prejuízos, no entanto, das magníficas interpretacões de motivos amazônicos trabalhados em estuque, das belíssimas molduras, em relevo que circundam os retratos da maioria dos prefeitos que se encontram embutidos nas paredes e, como parte integrante da ornamentação do grande salão da ala esquerda, existiam duas telas assinadas pelo renomado artista Aurélio Figueiredo, representando em tamanho natural uma, o ultimo Imperador do Brasil, Dom Pedro Il e outra, a Princesa Izabel, que foram doadas pela Câmara Municipal ao Instituto Geografico e Histórico do Amazonas, ali se cncontrando atualmente. Na sua fachada externa, nos deparamos com suas imponentes colunas em graníto que tão bem se imcorporam ao jardims dc estilo francês, da Praça Pedro II.
A última grande reforma pela qual passou foi na gestão do então Prefeito, Dr. Paulo Pinto Nery entre os anos de 1964 e 1968, quando a ala esquerda sofreu ampliação obedecendo aos traços arquitetônicos modernos.
Em 1956 pela Lei nº 565 de 26 de maio, o Paço Municipal passa a ser considerado “parte integrante do Patrimônio Histórico do Município de Manaus” e no ano seguinte através de proposta do Vereador e ex-Presidente da Câmara Municipal, Dr. Walter Rayol, sendo aprovada pela Assembléia, foi sancionada pelo então Prefeito Prof. Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, a Lei nº 636 de 19 de dezembro de 1957, alterando a denominação para “Paço da Liberdade” .
Em 1980, de acordo com a Resolução nº 001, homologada pelo Decreto nº 4.817 dc 6 dc fevereiro desse mesmo ano passa a ficar sob Proteção Especial da Comissão Permanente de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas atual Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas (CEDPHA).
Bondes em Manaus
Desde o período provincial já se pensava nos benefícios que o bonde – meio de transporte coletivo, traria à população e ainda à urbanização da cidade, haja vista que ao facilitar a locomoção, estimularia a construção de edificações em áreas mais distantes. Uma das leis mais antigas que trata da implantação dos bondes de Manaus, data de 1882 e consiste na autorização para contratação de uma empresa para instalação de um completo sistema de viação pública por meio de “carros americanos sobre trilhos – railways sobre trilhos de sistema Bourgois para carga de passageiros.” Apesar dos esforços da administração pública voltados para a realização do empreendimento, haviam fatores que dificultavam a instalação deste beneficio urbano em Manaus, aspectos topográficos e falta de interessados em custear e prover o assentamento do material, concorreram como os principais obstáculos deste período.
Somente em 1896 durante o Governo de Eduardo Ribeiro, o serviço de viação por bondes foi inaugurado em Manaus. Funcionando em caráter provisório, estava sob a responsabilidade do Engenheiro Frank Hirst Heblethwaite e contava com apenas duas linhas que tinham por fim interligar a área urbana com o subúrbio, ou seja as áreas mais distantes com o perímetro central. Atendeu inicialmente aos limites compreendidos pela: “Estrada Epaminondas, entre a Praça Uruguayana e 5 de Setembro e entre esta praça e o Igarapé do Baptista/na estrada Epaminondas e o Cemitério São João no Alto do Mocó.“
Em 1900 os serviços estavam sob a responsabilidade da Manáos Railway Company, empresa inglesa que recebeu consideráveis auxílios para sua instalação na capital, entretanto seus serviços foram considerados precários. Deste período é válido ressaltar uma solicitação curiosa: a imprensa noticiava com freqüência que a população solicitava prolongamento do horário dos bondes até o fim dos espetáculos quando houvesse programações no Teatro Amazonas. Em 1909 a concessão dos transportes por bondes foi entregue à empresa The Manáos Tramways and Light, que gerenciou simultaneamente os serviços elétricos do Estado. A empresa também de origem inglesa, destacou-se com traçar uma política com posicionamento rígido voltado para a eficiência dos serviços. Seus funcionários, todos estrangeiros, seguiam normas que favoreciam ao cumprimento de quadro de horário e freqüência no número de viagens. Trabalhavam uniformizados e atendiam com cortesia aos usuários dos bondinhos. Em janeiro de 1913, uma nota publicada no jornal O Tempo demonstrou haver, realmente, uma proposta de qualidade nos serviço desenvolvidos pela Manáos Tramways. A mensagem trazia a seguinte informação:
“A Manáos Tramways. .. tem a honra de avisar ao respeitável público que nas noites da véspera e dia de São João, 23 e 24 de junho, haverá bondes para todas as linhas durante todas as noites e será aumentado o número das mesmas para a linha de Flores”.
Por volta da década de 40, disputando passageiros com os bondinhos pelas vias de Manaus, passaram a circular os primeiros ônibus – confeccionados em madeira que faziam linha para todas as áreas urbanas e suburbanas da cidade. Foi a partir desse período que a situação dos “Elétricos” começou a ficar comprometida. Em 1949 a economia de Manaus apresentava-se complemente desordenada, o fornecimento de energia era racionado, o que prejudicou instantaneamente o funcionamento dos bondes. A Manáos Tramways, pouco a pouco foi perdendo o interesse pelos serviços de viação e em 1950 apresentou um relatório no qual alegava que os bondes eram os principais responsáveis por seus prejuízos. Em 1951 o gerenciamento dos serviços elétricos e por conseguinte o transporte por bonde, passou a ser responsabilidade do Estado. O jornal A Crítica de 1951 publicou que “os serviços elétricos do Estado são presentemente, verdadeira calamidade, nem luz, nem bonde, nem força.” Apesar das inúmeras dificuldades, os bondinhos permaneceram atuantes por mais de 60 anos. Deixaram de trafegar em 1957 contra a vontade da população, deixando grande saudade naqueles que viam nas engrenagens da antiga companhia inglesa um eficiente e barato meio de locomoção, assim como uma alternativa a mais em termos de transporte coletivo.
Arborização e Áreas Verdes em Manaus
(1870-1920)
A partir da segunda metade do século XIX, a cidade de Manaus iria passar por uma série de mudanças significativas na sua paisagem urbana. A alta arrecadação de impostos decorrentes da exploração da borracha favoreceu a execução de uma série de obras que visavam o embelezamento, saneamento e modernização da cidade, a fim de inserir Manaus no rol das cidades civilizadas. A cidade não poderia fugir à regra, era imperativo tornar-se bela, aconchegante, requintada e moderna.
A paisagem da cidade tornaria expressão de uma nova realidade. Na primeira década do século XX, o quadro que se apresentava era de uma cidade perfeitamente inserida na atmosfera da belle-époque, com melhoramentos e serviços urbanos razoavelmente eficientes, diversos prédios públicos e particulares inseridos no contexto da moderna arquitetura, ruas e praças embelezadas.
O crescimento da cidade foi realizado por um programa de expansão sobre as áreas de floresta, igarapés, pequenos morros e depressões que foram modificados para dar lugar a uma nova cidade. Essa expansão era também sinônimo de domínio e superioridade sobre a natureza, degradação ambiental e desprendimento da sociedade com o meio natural que a cercava.
A remodelação da paisagem que estava acontecendo era vista com muito cuidado pelos governadores. Ao mesmo tempo que se avançava sobre as áreas verdes, era necessário tomar as devidas precauções para preservar as espaços importantes para a cidade. Conforme estabelecia o Código de Posturas Municipais de 1896, era proibido, sem licença da Municipalidade, cortar árvores frutíferas, de madeira de lei ou de construção. Para os serviços realizados sob responsabilidade do Estado, havia uma legislação para regular o preço a ser pago de acordo com a densidade da mata a ser derrubada.
Segundo o governador Constantino Nery, “a possibilidade de irem se tornando cada vez mais pobres os mananciais que fornecem àgua para o abastecimento de Manaus, em virtude do corte de madeira pouco moderado para uso de particulares e fabricação de carvão, lembra a necessidade de uma realidade de uma medida de proteção às mattas que cobrem os mananciais”. Havia uma preocupação insistente por parte do Governador não só com a derrubada indiscriminada da mata, mas também com a qualidade a água que seria servida à população oriunda do garapé da Cachoeira Grande, onde se encontrava muita vegetação apodrecida nas águas decorrentes de derrubadas.
Diversas leis regulamentavam questões relacionadas com o meio ambiente no entorno da cidade. Problemas como aterro de córregos, a derrubada de mata para expansão dos bairros, uso de madeira para construir casas, entre outras ações dos indivíduos sobre o meio natural, eram fiscalizadas pelo Estado, ainda que muitas vezes não se tivesse garantia que eram cumpridas pela população.
Essa ‘retração da natureza’ no meio amazônico pode indicar uma série de significados que a mata teria para a sociedade. Verifica-se que pode decorrer também do desvanecimento do símbolo que a floresta poderia representar para uma população indígena aculturada, mestiça e estrangeira. Para a modernidade, a floresta significaria um estorvo à civilização.
Mas o verde também era um dos requisitos de beleza e requinte de uma cidade. Uma das principais preocupações do discurso oficial desde a Província era observar as áreas verdes e arborização dentro das diretrizes de higiene pública e de ornamentação de ruas e praças. Os objetivos não eram somente de caráter estético, mas também em virtude dos benefícios em relação à alta incidência de raios solares. Assim, as obras públicas para criação de novas ruas, praças, nivelamento de morros e aterros de igarapés é paralela com a preocupação em arborizar imediatamente estes espaços. A arborização da rua Brasiliana, por exemplo, foi realizada à medida que foi sendo construída, conforme fala do presidente da Província Domingos Monteiro Peixoto, em 1873. “Continua-se o desaterro da rua Brasiliana (…) e foram plantadas renovos de palmeiras imperiais. ”
Lamentavelmente, as medidas para arborizar praças e ruas da cidade foram tomadas a qualquer custo, sem planejamento e estudo para verificar quais espécies seriam mais adequadas a adaptáveis ao nosso clima. Desde 1870, havia uma discussão acerca das espécies a serem utilizadas: se plantas nativas ou plantas estrangeiras.O Governador Fileto Pires, em 1898, argumentava que “ Em vez de se buscar no estrangeiro plantas para adornar o nosso parque, podemos conseguir nas nossas florestas coisas muito mais bonitas e formosas”. Dessa forma, a implementação de jardins, áreas verdes e praças esbarrou na falta de planejamento do Estado na época. O caso das mangueiras é salutar: durante o período provincial, foi providenciado o plantio de mangueiras na maiorias das ruas da cidade; logo que as árvores ficaram adultas, percebeu-se que esta espécie não era adequada para arborização, não somente pelo fato de as raízes crescerem até quebrarem o calçamento, mas também pela possibilidade de poderem causar um sinistro, tal como a queda de um fruto na cabeça de um transeunte.
As espécies importadas eram Ficus Benjamin, Machaerium -type, palmeiras imperiais e acácias. A Palmeira Imperial (Roystonea oleracea), parecia ser a árvore mais requisitada para esse fim, pois milhares de mudas foram compradas para embelezar a cidade.
O porte magestoso, a beleza, a influência de sua difusão no Jardim Botânico do Rio de Janeiro certamente influenciaram muitos governantes a difundir a planta na cidade desde os tempos de Província, providenciando seu plantio na cidade. Entretanto, sua importação não foi bem sucedida, desde o transporte até a própria sobrevivência da arvore na cidade, conforme fala do Presidente de Província José de Miranda Reis, em 1872. “As mudas de palmeira que vieram do Pará chegaram pela maior parte estragadas, isto devido ao pouco cuidado que houve no transporte das mesmas”. Quando não era falta de cuidado, os inimigo das palmeiras eram outros; “Os cavalos que os carroceiros armarão no Largo da Imperatriz comem as folhas e troncos das palmeiras, impedindo assim que ellas possão crescer”.
No decorrer do início do século XX o Estado teve uma preocupação efetiva em promover a arborização de praças, jardins e hortos na cidade, até mesmo porque a cidade foi assolada por uma onda de vandalismo e roubo das espécies plantadas. No ano de 1915, foram reformados e embelezados espaços como Praça General Osório, Largo da Matriz, Praça da Constituição, Praça Pedro II, Praça Tamandaré e Praça da República. Foi providenciado também a recuperação da Avenida Eduardo Ribeiro, ruas Lobo d’Almada, Instalação, Dez de Julho, Marquês de Santa Cruz, Itamaracá, Brasiliana, 13 de maio, 4 de Maio, Marcílio Dias, entre outras, pois quase toda a arborização dessas ruas foi saqueada por moradores que desejavam para seus quintais um pedaço de floresta, beleza e sensação de conforto. Talvez um pouco de verde para colorir a beleza da vida que só a natureza pode fornecer.
Em 1921, o Governador Rego Monteiro assumiu o Governo, deparando com um quadro de falência quase generalizada. Uma de suas primeiras medidas seria extinguir cargos e repartições, entre as quais o Horto Municipal. Naquele momento, um dos últimos significados que o verde poderia ter seria esperança.
Veículos (individuais) utilizados
em Manaus nos séculos XVI a XIX
Tirante a canoa, que os primeiros cronistas batizaram com o sugestivo nome “montaria” (cavalo dágua), e que era e ainda é veículo de grande popularidade, mesmo para viagens longas e demoradas entre o Lugar da Barra e o Alto Solimões (até Nauta, no Peru) e/ou o Madeira, até Santa Maria de Belém, o regime era a “patriota” (pisante = andar a pé). Concebe-se que uma área tão exígua como era a da Barra de 1700, por exemplo, até 1840, o recurso individual era o pé, mas depois que se criou o “cinturão verde” ou “cinturão econômico”, com as famosas “rocinhas” situadas fora do perímetro dito urbano, a situação piorou. É verdade que os igarapés do Espírito Santo, dos Remédios, da Cachoeirinha, da Cachoeira Grande, facilitavam as comunicacões, por água, mas por terra havia uma série de perigos desafiando a coragem e a paciência dos pés caminheiros. Por exemplo, o Caminho da Cachoeirinha (hoje avenida de Sete de Setembro) se estendia da Alameda dos Tamarindos (primeira avenida com árvores racionalmente plantadas e que se pode ver em fotos antigas) até depois da rua de Antimari, onde as rocinhas de anil, de tabaco, de mandioca, e os “queixos de velha” abundavam. Para chegar até essa região, são e salvo, sem borbulhas nos pés, sem encontros eventuais com onças e índios Mura, sem cobras nem assaltantes de cor (escravos fugidos) você andaria melhor remando, mesmo porque naquela idade não havia pontes nos igarapés afastados.
Merece reparo o pastoreio iniciado por Lobo de Almada no Rio Branco. Vem daí o aparecimento do cavalo como meio de transporte, aliviando os pés caminheiros. Ele vai servir principalmente ao carvoeiro distribuidor do combustível (os primeiros foram portugueses, que trouxeram a novidade) do carvão vegetal invés da lenha em ser. Já nos séculos seguintes o cavalo é utilizado em veículos de madeira denominados andilha, liteira, cadeira de arruar, berlinda, landau (no museu do lGHA havia os restos mortais de um, da Prefeitura), coche, tilburi, charrete, caleça, mas positivamente nunca tivemos carros faustosos, modelo Luís XV e outros. Desses veículos, o que se tornou depois popularíssimo mesmo em Manaus cidade, foi o “carro de luxo”, uma sege tirada por parelha. Era tão estimada e popular que havia oficina de construção, na avenida de Joaquim Nabuco, residência dos proprietários, Empresa Cerca & Nazaré (Ruas). Serviu ao povo até a década de trinta, mais ou menos. Pode ver-se em fotos estacionamentos nos locais mais freqüentados pelo povo, como zona do Mercado, praça da Matriz, avenida de Eduardo Ribeiro. Possuíam quatro rodas, as duas da parte trazeira maiores e uma alta boléia onde ficava plantado o homem das rédeas, denominado “boleeiro”. Naquele banco ainda cabia uma pessoa, mas do sexo masculino. A sege comportava de seis a oito pessoas porque os bancos eram da largura do veículo e havia ainda banquinhos escamoteáveis para crianças. Os que chegamos a ver e a utilizar, eram ainda forrados de damasco vermelho e a boléia era de couro, conversível. Não tinham portas, por isso que ficavam devassadas. Das quatro rodas, as diante as eram menores, a fim de compensarem o espaço destinado ao jogo do varal ou lança. E obrigadas por lei a serem calçadas com superficies de borracha ou crepe. Eram veículos preferidos no Carnaval, com a boléia arriada onde as moças sentavam, mas também os mortos possuíam o seu, todo negro, com os bonitos cavalos ajaezados de dourados com plumas nas cabeças. Destes haviam os da Casa de Misericórdia e da Beneficente Portuguesa.
Rede de cambão. De seguro alguém já viu em desenhos ou fotos atuais esse tipo de transporte individual, tanto para vivos como para mortos. A rede foi em todos os tempos, na América sulina, aquele lectns pensile que causou furor na Europa, quando Colombo levou delas para seu rei. A vantagem da rede é que ela é para tudo: tanto serve para fabricar filhos como para marchar para o Oriente Eterno, ou dormir, comer, ler, sonhar, filosofar, etc. Ainda hoje é utilizada como meio de transporte fácil e barato, usando-se apenas um cambão e dois transportadores. Durante as soalheiras ou com tempo chuvoso, defende-se o usuário passando um protetor por cima do varal, tecido que pode ser de palha.
Cadeira de arruar ou “cadeirinha”, antigamente denominado andilha e liteira. Imagine-se uma cadeira estofada, metida num bioco de couro ou de madeira, com portas laterais, janelas de vidraca, apoiada em dois cambões, que os escravos ou lacaios seguravam firmes, às vezes nos ombros. Esta era o modelo mais modesto, porque havia outras em que os homens eram substituídos por cavalos. Era maior, mais cômoda e mais ventilada, aceitando janelas com vidraça. Segundo informações pessoais o modelo menos pomposo foi o usado pelos proprietários de rocinhas afastadas. Só tinha dois assentos, frente à frente, mas podia receber quatro pessoas, desde que nao obesas. Entretanto havía-as destinadas a quatro pessoas, isto é, mais largas e mais pesadas, admitindo quatro transportadores ou dois cavalos. A cadeirinha possuía a forma retangular, mas as mais distintas, de estilo, eram de paralelogramo ou trapezoidais, com torneados e incrustações de marfim.
Berlinda. Esse foi o tipo de veículo individual que teve fraca repercussão em Manaus, até o princípio do século XX, quando a introdução dos primeiros automóveis matou a poesia romântica do passado. Era mais suntuoso do que as seges acima aludidas, e o sistema de molas mais complicado, que fazia do veículo uma traquitana adoçada pelos calçados de borracha crepe. Tinha duas portas laterais e janelas envidraçadas. Como se vê era veículo para gente fina. Só se tem certeza da existência dela em Manaus pelo “Jornal do Comércio” que publicou uma notícia a respeito do padre dr. José Manuel dos Santos Pereira, professor, residente na estrada Sete de Dezembro (Joaquim Nabuco), dono de uma. Mas havia outras, de propriedade do Barão de Bastos, dos genitores dos doutores Almir e Adalberto Pedreira (informações do último), e esses grandes veículos requeriam por sua vez cavalariças espaçosas. Aliás foi a época em que todas as casas nobres de Manaus possuíam garages e não só estas como as repartições públicas.
Tilbury, tilburi – Era um carro leve, de duas rodas, tirado geralmente por égua por causa da altura. Possuía cobertura manobrável, em forma de tejadilho, e era aberto. A cobertura nascia da boléia, por isso o veículo só se prestava para uma pessoa que a dirigia. Introduzido pelos ingleses da Manáos Railways, no princípio do século vinte, entrou na moda e os súditos alemães Waldemar Sholz e Deffner dirigiam eles mesmos os seus carros, quando iam para o Deutsche Klub, no começo da avenida de Constantino Nery, onde foi a sede do Olímpico Clube. Existe uma foto muito requisitada, que documenta um atravessando a trote a avenida de Eduardo Ribeiro. Esse tipo de veículo pessoal resistiu até recentemente, década de vinte, quando o último (ou um deles) ainda circulava desde a Vila Municipal até o hangar dos bondes da Manáos Tramways, na Cachoeirinha. Por ser pequeno e leve não exigia grandes espaços para abrigo.
Cabriolé. É uma versão melhorada do tilburi, para duas pessoas, porém leva atrás um estribo para o trintanário. Tirado por um só animal.
Charrete. Carro de duas rodas de diametros maiores, com dois varais para uma parelha de cavalos. Possuía a forma mais ou menos retângula, com assentos e boléia para duas pessoas incluindo o boleeiro. Entretanto, denominava-se charrete ou charriote a um veículo do mesmo tipo. Mais ou menos até 1917, um alto funcionário dos Correios e Telégrafos usava de uma, e a égua, muito educada, chamava-se “Nelly.” Após deixar o dono na repartição, que ficava na praça de Quinze de Novembro, a égua voltava sozinha para casa, pois o dono, que residia na Vila Municipal, almoçava na cidade. Na hora de ir buscar o patrão, o jardineiro e tratador atrelava-a e deixava-a ir. Nunca a “Nelly”, que era potranca, desviou-se do caminho por causa de algum garanhão. E depois que pariu, o potro ia ao seu lado, trotando alegremente. Publicamos uma nota, a respeito dessa charriote, porque chegamos a conhecê-la de perto, quando menino. Introduzida pela colônia francesa, não teve muita popularidade.
A Indumentária dos Homens dos
Séculos XVII a XIX
Existem documentos fotográficos e desenhos da indumentária dos homens dos séculos anteriores ao vigésimo, inclusive reproduções coloridas no Dicionário Lello Universal. Embora as reproduções desse dicionário não estejam rigorosamente exatas quanto ao tema universal, eles servem para comparar as modas européias. Mas quase toda gente sabe que até o século dezessete a indumentária dos homens era marcada pelo estado social das classes, que se caracterizavam pela plebe, burguesia (artesãos, comerciantes e clero) e nobreza, ou simplesmente povo e nobreza. Àqueles não era conferida a autorização para usar espada, a menos que fossem militares. E aos burgueses do tipo comerciantes conferia-se o direito de usar espadim ou espada de salão, uma arma imprópria para duelo. A indumentária dessa gente podia ser muito simples, constituída de calções justos presos nos joelhos e camisa fechada no pescoço e de mangas compridas, com uma gravata larga do tipo corrugado. A fazenda variava da gabardine para o algodão cru. Chapéu sem plumas ou gorro. Os nobres, ao contrário, caprichavam na toalete, quase efeminada com laçarias, pérolas, pedras preciosas, bordados a prata e a ouro, e brincos (penduricalhos) de ouro e prata.
Alguns mais atirados imitavam os orientais e usavam argolas no septo nasal. As roupas eram bastante coloridas e até se pareciam com as extravagâncias do mutantes modemos aquelas calças de listas verticais. O uso do colete de seda era mais funcional do que ornamental por causa do clima europeu. Por cima dele se cobriam os fidalgos e nobres com o gibão, de veludo ou de alpaca, que caía pelos joelhos e era aberto para mostrar a camisa de linho curado com botões de pérolas ou brilhantes.
No inventário que fez dos seus bens o governador Lobo da Almada cita essas jóias, inclusive para os punhos da camisa de bofes de rendas. Houve épocas em que não se usou gravata, mas uma gola de pano de cambraia em serpentina (ondulada) e todo retrato de Shakespeare e de reis e imperadores do século XV ao XVI infalivelmente amostra essa moda. Por último o nobre não dispensava a capa. Esta era sempre de cor escura, forrada de vermelho satânico, com nastros para atar no pescoço. Embrulhava-se ele naquele manto para defender a roupa da poeira, fosse de dia ou à noite. No século seguinte, XVII, a moda exigia uma variação, que era para as cores mais claras, com calções golpeados, ou de gomos coloridos. É uma ressurreição da tradição “Iluminista” na Europa, e até as espadas, que ordinariamente tinham os punhos em forma romana de cruz, passaram a ser tonificadas com os copos lavrados, obras de ourivesaria que, segundo consta, foram enriquecidas pelo mago do cinzel, o italiano Benevenuto Cellini. Nessa época a espada deixa de ser adereço do cinturão para compor o complexo baudrié. E o boldriê ou talabarte, de couro chapeado de prata e ouro, passa a ser um indumento mais suntuário do que funcional, pretexto para encrustar pérolas e diamantes. O escritor francês Alexandre Dumas enriquece a prosápia do seu personagem Porthos, com aquela piada de que o talim do mosqueteiro só tinha fachada, isto é, só era suntuoso na parte da frente, atrás era couro cru, que a capa disfarçava. O chapéu de abas largas requeria uma pluma de avestruz algumas à moda Rubens. E as botas subiam até as coxas, com esporas douradas. A moda dos príncipes e fidalgos muda com a Comuna de Paris. As calças descem sobre as botinas, o gibão se transforma em paletó e a gravata num pano colorido atado ao pescoço. O antigo chapéu de plumas diminui as abas e passa a ser chamado tricórnio ou bicórnio, conforme tenha dois ou três bicos. Um retrato oficial de Napoleão Bonaparte mostra essa invasão da nova moda. A calça continua sendo chamada “de alçapão”, porque tem a braguilha em forma de triângulo, abotoada por três botões, a fim de facilitar o trabalho fisiológico. Mais tarde o chapéu passa a ser cartola ou “chapéu alto” de pêlo de castor. O colete continua porque é fimcional. A camisa branca recebe punhos de renda como antigamente e os botões são mimos de pedras preciosas. Mudam os nomes também: o paletó desce até os joelhos e se chama via de regra, jibão ou véstia. Sobre ele podia usar-se o sobretudo O colete passa a ser fiuncional, para o uso do cebolão (relógio de algibeira, maior que o comum e de espessura maior) e para a corrente do palito de dentes.
Este último implemento não era de uso entre os homens de “alto coturno”, mas os comerciantes portugueses não relaxavam no seu uso e abuso. Os homens usavam “ceroulas”, uma calça longa que se amarrava nos tornozelos. Mais tarde é que passou a ser curta, pelos joelhos. A gravata, no início, era de couro, principalmente para os militares. Depois passou a usar-se o plastron, uma gravata já pronta que se atava ao pescoço ou a de “laço de clow”, uma tira larga de pano a que se dava uma laçada cujas pontas ficavam flutuando. Geralmente os artistas é quem mais adotavam este modelo. O sapato não era nacional. Vinha da Inglaterra ou da América do Norte e havia marcas famosas como a Walk-Over. Os dandis usavam sobre o borzeguim uma capa de gabardine cinza chamada polaina. Não havia ainda sapato de entrada baixa somente botinas de cano alto, e algumas de elástico na zona do tornozelo, e botas. Para fechar havia duas modalidades: ou torçais ou grampos Para estes era necessário o uso do “gancho”, um estilete de ponta dobrada, que apanhando o botão do sapato, trazia-o para a casa. O tratamento da cara era chamado “afeitação”, e quando o homem possuía barba completa, isto é, barba e bigodes juntos com suíças, denominava-se “barba passa piolho”. Se a barba era em ponta como a do coronel Ramalho, chamava-se ainda cavanhaque nome do inventor. E o montinho de cabelos que o coronel Antônio Bittencourt portava sob o lábio inferior, mosca.
Quando em ponta e curta era ‘pêra”. O bigode era trazido à moda d’Artagnam, espichado e fino e à moda Kaiser, dobradas as pontas para cima; à “marechal Hindembourg”, grosso e de guias retorcidas. Havia um aparelho de pano que se colocava em cima dos bigodes, para mantê-los firmes depois de encerados, era o “porta bigodes”. Por fim a bengala, que se usou muito nos séculos anteriores, porém mais altas. Havia as de “espeque”, arma perigosa na mão de adversário instintivamente mau. Se o inimigo prendesse a parte inferior, o portador puxava e tinha nas mãos meio metro de ferro afiado. A bengala de honra era a de castão encrustado a ouro com monograma cinzelado. A madeira variava do pau Brasil muito dura e resistente para mogno, freijó, cedro, muirapinima, piranheira, acapu. Foi a arma utilizada nas campanhas eleitorais do passado, nas vinganças solertes, nas tocaias.
Foi a arma com que o dr. Artur César Ferreira Reis castigou o jornalista e professor Carlos Mesquita. Foi a arma com que o coronel Bittencourt mandou sovar o jornalista João Barreto Meneses e o jornalista português Fran Paxeco.
Fotos do anúncio da Maison Francesco Luzzato. Álbum Descritivo Del Pará, 1898.
A Indumentária Feminina desde o
Século XVI ao XIX
Inicialmente será preciso advertir que o primeiro gesto de admiração do índio por gente vestida diferentemente deles, que só usavam tangas e aracoiaba (saiote de penas) acontece com o contato entre eles e o capitão Francisco Orellana em 1541. A partir portanto da colonização portuguesa no século seguinte (XVI), é que se inicia uma reviravolta nos costumes, com as famílias colocadas em terras das Capitanias do Cabo do Norte e do Grão Pará. Só conhecemos os tipos de roupas femininas ou por xilogravuras imperfeitas ou pelos tipos de fazenda que a coroa portuguesa mandava distribuir aos colonos, os quais alegavam que suas mulheres e filhas não podiam ir à igreja por não terem “roupas de ver a Deus”. Que tipos de fazendas eram aquelas? Os documentos escritos nos dizem, na sua linguagem indecisa: peças ou côvados de “bertanha” (Bretanha), algodão não curado, chitas lisas, meias grosseiras, nada de sapatos nem de chinelos, somente socos. Para compensar essa míngua de ofertas, o governo autorizava a entrega de novelos de algodão cru, rocas de fiar e um ou outro tear de pedal. Os grandes teares só aparecem na Capitania de São José do Rio Negro, na vigência do governo Lobo de Almada, quando este mandou construir a Fábrica. Fechada esta, a população viu-se a braços com o problema duplo de importar as peças de Belém ou de fiar em casa o pano de algodão. Este último recurso foi o que deu certo e como se vê na foto do século XVIII, em todas as residências haviam fiandeiras, ou contratadas e ou escravas e gente bem.
A roca era um aparelho muito simples, constando de uma armação de madeira, dotada de roda grande que era movida a pedal e um rolo na parte superior para enrolar o fio de algodão. Trabalhava-se naquilo o dia inteiro ou em horas de lazer e obtinha-se o material necessário para o tear. Este sim, requeria maior desempenho e cabeça, pois a tecedeira deveria seguir certos padrões convencionais e a partir deles, elaborar seus desenhos próprios, com fios coloridos ou não. O tear não foi introduzido pelo colono, o indígena já o conhecia, pois fazia suas redes de fio de tucum, de trama bem apertada. Existem gravuras em livros de viajantes.
O governo português mais tarde já concedia equipamentos para os colonos, e mesmo chegava a dotar as filhas-família com um arsenal de roupas sofisticadas, daquele modelo que ia transitando do afogado para o amplo. Não dava presentes caros, do tipo jóias, sapatos, adereços feminis. Também as leis suntuárias proibiam que as escravas usassem ouro e brilhantes, sedas e veludos. Daí a grande sortida de colares e pulseiras de contas, aqueles “berenguendens” de que falam os cronistas e que continuam a encantar a mulher, enfeites feitos de sementes de mulungu, de lágrima de Nossa Senhora, com pendentes talhados em caroco de tucumã, e anéis do mesmo, chamados “memória”.
Os primeiros modelos de toalete feminina de que se ocupa a história, sem notícia detalhada, são oriundos do século XVI e foram as saias balão. A partir de um conjunto básico, que constituía a “braga” (calça frouxa apresilhada no tornozelo), anágua, camisa inteira, parapeitos, então sobrevinha a cobertura do colo, com uma blusa. Algumas damas de colo exuberante usavam o corselete e outras o espartilho. Esta peça era tirânica, pois tendia a acochar as banhas, diminuindo o “à vontade” dos movimentos, além de que eram feitas com talas de aço. Depois foram substituídas por barbatanas de baleia. A mulher desse período não usava sapatos de entrada baixa; ou eram botinas de tacão baixo ou servilhas. As mestiças e escravas usavam o mesmo modelo, mas de pano diferente, algodão. No século dezoito as saias passaram a chamar-se “baroneza”, “veneziana”, ou “saias balão”, por causa do amplo diâmetro da fímbria que arrastava no chão. Quanto à blusa era de decote atrevido, mostrando o nascimento dos seios. O interessante é que para as mulheres mostrar os mocotós era mais ofensa ao pudor que mostrar os seios à Maria Antonieta. Para as mulheres de baixo nível social essa toalete chamava-se “descalça”, porque a mulher não usava calçados e nem mesmo servilhas. Em compensação não deixava de trazer uma flor no cabelo, sua garridice. Madame Agassis ilustrou seu livro com o retrato de uma mestiça nesses trajes, mas não se refere ao nome “descalça”. Também nesse período a mulher da Amazônia não usava chapéu. Os cabelos eram armados ou em “torre” (enrolados para cima) ou em coque (popularmente cocó, enrolados na nuca). Atrás da cabeça elas metiam o “trepa moleque”, um pente grande, ornamentado, que ajudava a suspender a mantilha. O penteado podia variar daí para os cachos, os bandós, as tranças enroladas, os xixís. Cabelos soltos e tranças livres só as portuguesas usavam.
O fim do século XIX trouxe Paris para a Amazônia e a indumentária mudou, com o uso e o abuso de grandes chapéus, vestidos de cauda, de uma só peça ou de duas, luvas e mitemes, calças curtas pelos joelhos, sapatos de entrada baixa e salto alto (ou botinas), sutiãs pré-fabricados, mas o uso do espartilho de barbatanas continuou até à década de vinte, mais ou menos, quando ela se libertou das calças (passando a usar calcinhas) e dos espartilhos. Os grandes “abanicos” ou leques eram fabricados no Japão e na Espanha, e certamente tiveram grande influência social nesse período. Os cosméticos é que não faziam parte do seu arsenal de boudoir. Os cheiros e os tônicos eram de origem natural: óleo de mutamba para o cabelo ficar ondulado e negro; patchuli, cumaru, para a roupa. Com a invasão da Europa, os perfumes do tipo kananga do Japão passaram a substituir o regional.
Teatro Amazonas (I)
Primeira Fase – Governo Provincial
A COMUNIDADE CITADINA EM 1870. Já a essa altura o povo de Manaus, capital da Província do Amazonas, conhecia as várias formas de expressão dramatúrgica. Inclusive as chamadas diversões de salão, o ilusionismo. Conhecia teatro não somente de leitura de peças italianas, espanholas, francesas, inglesas, mas também pelas representações levadas a cabo nos dois péssimos teatros existentes: o famoso “Thalia” teatro de madeira, na então praça de Tamandaré, e o “Éden Teatro” na praça de Dom Pedro II e o teatrinho da Beneficiente Portuguesa na praça de Uruguaiana. No primeiro, além dos melodramas cantavam-se óperas e operetas líricas. No segundo apresentavam-se pequenas farsas, alegorias, potaches, facécias, duetos, mimos e os já consagrados autos religiosos, que iam do mistério ao pastoril. A vocação do povo para a arte, na qualidade de auditor e de participante, autorizava a necessidade de substituir-se o exíguo teatro de madeira por edifício que honrasse a cultura em processo. Num teatro maior, melhor condicionado, as companhias líricas que orientassem seus interesses para a enriquecida Província afluiriam com mais freqüência e seleção no elenco e no repertório. Assim ajuizavam os homens de pensamento daquele tempo.
A SITUACÃO ECONÔMICA DA PROVÍNCIA DO AMAZONAS. Possibilita a implantação rápida e definitiva de vários melhoramentos e até de audaciosos projetos, porque a propaganda que se fazia na Europa, em revistas e jornais, era ao mesmo tempo para efeito de acelerar a colonização estrangeira e abrir mercado compensador para efeitos e testes científicos e sociais. Passamos do longínquo teatro religioso das Missões, de efeito apenas catequético, para as tentativas bem sucedidas do grande teatro. Os grupos teatrais formados em Manaus à época garantiam a sucessão periódica ou sazonal dos cartazes domésticos. A cidade já possuía, entre outros, os hotéis DE FRANÇA, UNIÃO, EUROPA, que se blasonavam de superiores ao da Corte, hospedaram todavia grandes personalidades, do tipo, para exemplo, do poeta maranhense Sousândrade, chegado em 1870. Havia vários ateliers fotográficos (conquista que não existia em muitas cidades do país), vários jornais, restaurantes franceses, casas de modas, armazéns, ruas em parte calçadas à pedra tosca, pontes de madeira, alguns igarapés decantados, e coisa sensacional na década de noventa, um sistema de transporte urbano-suburbano com capacidade para transportar passageiros do bairro de Flores para o centro (praça do Comércio) e vice-versa. Esse transporte era constituído do locomóvel arrastando jardineiras e como não podia deixar de ser, sobre ele corriam apetitosas facécias que publicamos na nossa compendiosa obra TEATRO AMAZONAS. Muitos prédios nobres honraram a cidade: Catedral, Enfermaria Militar de São Vicente-de-Fora, Quartel do Terceiro de Artilharia-a-Pé, Palácio do Governo, Forum, Edilidade, Alfândega e Correios, Seminário Episcopal, Igreja dos Remédios, etc. Uma companhia de navegação a vapor foi idealizada e funcionou perfeitamente para a América do Norte. Depois foi fundada outra para a Europa.
O PROJETO DE CONSTRUÇÃO DO TEATRO AMAZONAS. É de autoria do deputado provincial Antônio José Femandes Júnior, datado de 21 de maio de 1881, apresentado à Assembléia Provincial Amazonense. Orçado primeiramente em sessenta contos de réis, depois de longas discussões abriu-se o crédito de cento e vinte contos de réis, com que se pretendia dar inicio à obra. A planta do Teatro Amazonas se originou da publicação da lei 593 de 29 de maio daquele ano. Os projetos apresentados foram de Carlos Celeste Saccardi, orçado em duzentos e quarenta e nove contos, oitocentos oitenta e três mil duzentos e noventa réis(249:883$290) e a outra do Gabinete Português de Engenharia de Lisboa, representado pelo comerciante Bemardo Antônio de Oliveira Braga, na importancia de quinhentos contos de réis (500:000$000). Venceu este, alegando-se que o primeiro omitia a construção das fachadas laterais e posterior, não fazia referência ao emboço, reboco, caiação e pintura; idem ao assoalho e forro da platéia, ladrilhos da entrada e do saguão, mão de obra da armação da cúpula, além de calcular muito por baixo o preço corrente da alvenaria e do forro a serem empregados. A planta vencedora está assinada por Jorge dos Santos e Felipe Monteiro, datada de Lisboa, 4 de outubro de 1882, com as chancelas do representante Antônio de Oliveira Braga e da testemunha Pais Sarmento.
O PRIMEIRO LOCAL ESCOLHIDO PARA A CONSTRUCÃO DO TEATRO AMAZONAS. Foi a antiga rocinha de propriedade do tenente-coronel Antônio Lopes de Oliveira Braga, situada na atual praça de São Sebastião, indicada pelo deputado provincial J. Meireles a 28 de maio de 1883. Deu-se preferência ao quarteirão contíguo à praça de Paiçandu (trecho atual das avenidas de Eduardo Ribeiro-Sete de Setembro, ruas de Enrique Martins-Saldanha Marinho e travessa do Barroso), chegando-se a desapropriar o casario naquele quarteirão. O terreno não oferecia segurança por causa dos aterros do igarapé do Espirito Santo (hoje avenida de Eduardo Ribeiro) aconselhavam os técnicos, desonerando-se de qualquer responsabilidade. E como o terreno da hoje praça de São Sebastião já estivesse preparado e em situação mais destacada, a comissão encarregada da escolha resolveu aceitá-lo.
CONTRATOS FIRMADOS. Posta em licitação, a obra é arrematada pelo comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, em 1883, pela quantia de quatrocentos e noventa e três contos, quatrocentos oitenta e quatro mil, trezentos e cinqüenta e cinco réis (493:484$355). Contrato assinado a 23 de agosto de 1883. De acordo com a cláusula 35a o arrematante (que seria apenas um testa de ferro) negociou o contrato com Alexandre Dantas e este com a firma Rossi & Irmãos, da Itália, com representação no Rio de Janeiro e que já vinha concluindo vários edifícios em Manaus.
PEDRA FUNDAMENTAL. Assentada no dia 14 de fevereiro de 1884. O representante da firma em Manaus era o conde Ermano Stradeli
INÍCIO DAS OBRAS. Em junho de 1884 os jornais de Manaus começaram a falar das obras, atrasadas por falta de pedra. A cantaria é das pedreiras da cidade, parte obtida das quedas dágua do bairro da Cachoeirinha e parte da antiga rua da Pedreira, de onde se obtinham as pedras toscas para calçamento. O vigamento de aço foi encomendado em Glasgow e veio pelo vapor brasileiro “Maranhense”. Nesse ano veio a Manaus o chefe da firma Carlos Rossi, acompanhando o pessoal contratado, mestres e contra-mestres e alguns operários especializados, apenas.
RESCISÃO DO CONTRATO. As obras prosseguiam lentamente, visto os contratantes pretenderem a alteração do plano original. O governo provincial mandou suspendê-lo por oficio n° 24 de 11 de agosto de 1885, a fim de que se chegasse a acordo. Não sendo possível, o contrato foi rescindido por ato de 12 de janeiro de 1886, recebendo a firma a importância de trinta e nove contos, oitocentos vinte e hum mil, quatrocentos e trinta réis (39:821$430).
Teatro Amazonas (II)
Segunda Fase – Governo Republicano
NOVAS ATIVIDADES. Em 1892 o deputado estadual Dr. Fileto Pires Ferreira apresenta o projeto n° 7, autorizando o governo a liquidar as contas com os empresários das obras do Teatro Amazonas. Convertido na lei n° 3 de 31 de agosto, o Estado do Amazonas pagou aos querelantes a importância de sessenta contos de réis (60:000$000), menos da metade exigida, que era de cento e cinqüenta contos, oitocentos e vinte e oito mil, oitocentos noventa e oito réis (150:828$898).
Governava então o estado republicano o dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, o qual deu impulso às obras paralisadas.
CRISPIM DO AMARAL. Com apenas três dias de diferença do edital de 18 de fevereiro de 1893, Eduardo Ribeiro manda contratar o artista brasileiro Crispim do Amaral para realizar as obras de decoração, pintura, omamentação e instalação do mobiliário do Teatro. O artista não era somente pintor afamado e cenógrafo da Comédia Francesa, mas também músico, ator e comediógrafo, formado pela Academia Real de São Lucas (Itália), retratista e caricaturista. Foi um dos fundadores da revista nacional famosa O MALHO. Dele no Teatro Amazonas, são as decorações intemas, pinturas, telões de cena, pano de Arlequim, bastidores, rompimentos, colocação da rosácea do ‘plafond” da sala de espectadores, construção do maquinismo do palco, assentamento das cadeiras da platéia, arrumação do mobiliário, das peças de arte, estátuas, faianças, etc., além dos contratos para a aquisição da alegoria a Carlos Gomes, na rosácea. Dele é também o projeto da parte frontal do ediffcio, com o ante-corpo, tímpano, frontão hemicircular, acrotérios, óculos, cachorros, e bustos de personagens com evidência na cultura nacional.
UMA HISTÓRIA QUE ATÉ PARECE ESTÓRIA… Do plano original do frontão do Teatro Amazonas, concebido por Crispim do Amaral conforme desenho publicado nos jomais da época, constavam: a reprodução da estátua “Apolo recompensando as Artes”, em tamanho natural, e nos acrotérios laterais duas liras, tudo em ferro fundido. Esses elementos decorativos adquiridos por compra em Paris chegaram a Manaus mas não foram instalados. Alegou-se, com ou sem razão, ser o grupo, pesado demais para a estrutura de alvenaria de pedra do frontão. Durante muitos anos ficou o Apolo abandonado na praça de São Sebastião, sujeito às intempéries e ao vandalismo, e mais tarde seria recolhido ao pátio externo do hangar da antiga Usina de Bondes, no bairro da Cachoeirinha. Pelo menos até 1930 ali permaneceu, ao abandono. É sabido o fim que levou: o govemo Álvaro Maia doou o grupo a uma conhecida metalúrgica de Manaus, que o fundiu para estrutura de navios.
TELÕES. O pano de boca do Teatro Amazonas, ainda em uso (recuperado na gestão govemamental do cel. Walter de Andrade e novamente estragado pelas companhias chinfrins que têm vindo a Manaus) foi pintado por Crispim do Amaral sobre telão importado à Casa Capezot de Paris. Representa o encontro das águas (rios Negro e Amazonas) classicamente confundidos com tritões humanizados e a natureza amazônica fielmente reproduzida em conjunto. Não seria o único telão. Outro havia sido abandonado por imprestável, com as dimensões do atual: mostrava o próprio teatro em segundo plano, feericamente iluminado como na noite imortal de sua inauguração. A singularidade do harmonioso conjunto estava no fato do artista haver reproduzido a sua concepção original da frontaria, mas a estátua cimeira do “Apolo representando as Artes” fora substituída pela figura de um índio rompendo os grilhões. Talvez se tratasse de uma alegoria apoteótica a Ajuricaba ou então uma referência à libertação da cultura.
De qualquer sorte não se justifica a alegação de que um nome estranho, pintado em caracteres latinos atrás do pano, seja a assinatura do autor. Concorrem para eliminar essa idéia extravagante em primeiro lugar o contrato com Crispim do Amaral e em segundo a nenhuma referência a tal pintor nos jomais da época e nem na teoria dos contratos assinados. Já basta o nome de Capranezzi aparecido por mera circunstância mas o pintor, francês, existiu e se chamava Carpezar.
ROSÁCEA. Foi montada por Crispim do Amaral em 1896, recebendo pelo trabalho excepcional a importância de trezentos cinqüenta mil réis (Rs.350$000). Todavia a alegoria a Carlos Gomes, onde figuram as suas óperas, é de autoria desconhecida, talvez pintada na Itália ou na França, ou incluída no trabalho geral do artista.
DECORACÃO EXTERNA. Toda a decoração externa ficou a cargo do construtor italiano Enrique Mazzolani, que recebeu a importancia de cem contos de réis (Rs.100:000$000) por contrato firmado a 31 de março de 1895. Não se inclui o trabalho de pintura externa, feito com o mesmo, adiante explicado pela autorização de serviço.
MANUEL COELHO DE CASTRO. Encarregado da construção do Palácio da Justiça, Manuel Coelho de Castro contratou com o governo, a 31 de maio de 1893 a continuação da obras do Teatro Amazonas, sujeitando-se às cláusulas do primitivo acordo feito com Manuel de Oliveira Palmeira de Meneses. É com aquele construtor que as obras prosseguem sem interrupção até o final, 26 de fevereiro de 1895, quando recebeu a quantia de cento e vinte contos de réis (Rs. 120:000$000).
FERRAGENS. Todo o material de ferro, escadas, rosáceas, gradis, varandins, decorações, bancos, roseta da sala de espetáculos, estatuetas internas e externas, colunas de ferro, mesas e cadeiras primitivas do bar, cadeiras de ferro da platéia, vigamento de aço, “charpante”, arco da “avant-cène”, grupo do Apolo, liras, armações da cúpula, foi adquirido em Paris à Casa Koch Frères, rue Martel, 6. Excetuam-se apenas as grossas vigas de aço anteriormente vindas de Glasgow.
MOBÍLIAS DE MADEIRA. Parte do mobiliário (pouco resta) artístico, de madeira, existente no salão nobre do Teatro Amazonas e camarotes do Governador, é de fabricação nacional, adquirido no Rio de Janeiro, à marcenaria Brasileira, de Tomás Cockrane. Dele ainda lá estão um sofá e poltronas forradas de seda, mas o forro original em verde com bordaduras a ouro desapareceu consumido pelo tempo.
COBERTURA. O serviço completo de cobertura do Teatro Amazonas foi contratado por duzentos contos de réis (Rs.200:000$000), incluindo-se tirantes, vigas, consolos, caibros, condutores, pára-raios, montagem da cúpula. Em moeda francesa da época, vinte mil duzentos setenta e cinco francos. A cúpula foi adquirida à Casa Koch-Frères, pela importância de trinta mil francos e é constituída de telhas vidradas da Alsácia, embricadas. Terminada a montagem a 30 de novembro de 1895, trabalho executado pelos técnicos franceses Adhémar Lelubre, chefe, e auxiliares Belonic Candeller e Adolphi Rigonsi, auxiliares. O primeiro recebeu de gratificação pela rapidez do serviço um conto de réis (Rs.1:000$000) e os demais quinhentos mil réis (Rs. 500$000). A pintura ornamental é de autoria de Lourenço Machado, que a fez por seis contos, setecentos e sessenta e seis mil e novecentos vinte réis (Rs.6:766$920). Nesse rol está incluído o arco-de-proscênio, da mesma casa vendedora e colocado pelos mesmos técnicos. Durante a recuperação operada no governo cel. João Walter de Andrade, muitas das telhas danificadas foram mandadas fazer no Brasil e lá estão confundidas com as demais.
ESPELHOS, ETC. Vieram para o Teatro Amazonas oito caixas contendo espelhos de Veneza, os quais foram adquiridos parte na Itália, parte na França, custando ao todo a quantia de três contos quatrocentos e noventa e quatro mil réis (Rs. 3:494$000). Desses espelhos só restam os de moldura dourada, pequenos. Os maiores, fixados em moldura de gesso na pedra, pelos corredores, desapareceram, pilhados durante o governo malsinado do desembargador César Augusto do Rego Monteiro, que os conduziu para sua residência fixada posteriormente em São Paulo, onde foram vendidos em leilão. Desapareceram igualmente jarrões de porcelana francesa, chinesa e japonesa, bibelôs legítimos de Sevres, cristais do camarote do Governador, estatuetas (duas estavam na sacada do Palácio do Governo). Para o luxo requintado do Teatro Amazonas vieram cortinas de damasco, tapetes persianos, veludos, rendas. Os camarotes eram guarnecidos de bambinelas de veludo de reps carmezin com berloques de fios de ouro. A balaustrada dos camarotes e frisas igualmente, e todos eles providos das respectivas “damas-de-sala”, de que ainda restam algumas no precário museu do Teatro.
Teatro Amazonas (III)
INSTALAÇÕES ELÉTRICAS. Contratou o serviço geral de instalação elétrica o engenheiro eletricista Vicente José de Miranda, a 3 de março de 1896, pela importância de duzentos sessenta e dois contos, quinhentos sessenta e três mil, oitocentos e quarenta réis (Rs. 262:563$840) ou em dólares na época 45.584, ao câmbio do dia, adquirido todo o material em New York. A instalação elétrica atual é nova. Foi inaugurado o sistema a 10 de dezembro de 1896, vinte e um dias antes da inauguração oficial.
ESTUCAMENTO. A 28 de maio de 1896 Manuel Gomes da Rocha contratou o serviço de estucamento do Teatro Amazonas pela importância de duzentos setenta contos, setecentos trinta e nove mil e oitocentos noventa e sete réis (Rs. 270:739$897).
LAJEDO, MOSAICOS. Todo o lajedo ainda existente em torno do Teatro Amazonas, chamado pedra liós de Lisboa (calcário e não mármore propriamente dito) foi adquirido naquela cidade ao preço corrente de trinta e três mil réis (Rs. 33$000) o metro quadrado, incluindo bordadura. Os mosaicos, de que nada mais resta, pilhados durante vários governos, vieram por negociação com a Casa Koch-Frères, fabricados especialmente na França, cerca de 486 metros quadrados. Foram colocados no interior do Teatro Amazonas (saguões, sanitarios, etc.) à razão de quinze mil réis (Rs.15$000) o metro quadrado. Preço: dez contos de réis (Rs.10:000$000).
ESCADARIAS DE MÁRMORE, INTERIORES. Perderam-se no sinistro do navio “Santarense” em 1896, fornecidos pela Casa Koch-Frères e foram substituídas (não havia mais tempo para vir outras, aproximava-se rapidamente a data da inauguração) por escadaria de madeira tipo Romeu e Julieta (acapu – pau amarelo). Não se tem notícia do custo, mas sabe-se serem de mármore de Carrara legitimo. As de madeira custaram em 1897 quinhentos mil réis (Rs.500$000) o metro linear (material e ferragens fornecidos pelo governo) num total de quatro contos e quinhentos mil réis (Rs.4:000$500), sendo trabalhadas e montadas por Antônio Inácio Martins.
Fala-se, sem razão, que o material perdido naquele sinistro era constituído de colunas de mármore de Carrara. Não é verdade. As colunas existentes no salão nobre do Teatro Amazonas apenas assentam sobre bases de mármore de Carrara, e no contrato assinado com o pintor decorador italiano Domenico De Angelis se diz claramente seriam da imitação do mármore. As escadas de mármore de Carrara existentes atualmente nas laterais de entrada para cima foram mandadas colocar pela Comissão de Recuperação do Teatro Amazonas, na gestão do governador cel. João Walter de Andrade, em 1972 e presidida pelo professor Mário Ypiranga Monteiro, autor dessa idéia.
MUROS DO TERRAÇO. A planta do muro do terraço do Teatro Amazonas foi executada no Departamento da Indústria, em Manaus, 1896, sob a direção do engenheiro civil dr. João Miguel Ribas. O trabalho foi executado pelo contratante dr. Enrique Weaver, de 1897 a 1898, recebendo quinhentos e trinta e hum contos, quinhentos e quatro mil, duzentos oitenta e seis mil réis (Rs.531 :504$286). As escadarias de pedra de Lisboa existentes à frente e atrás e nas laterais e posteriormente nos terraços foram assentadas por José Gomes da Rocha, contratado especialmente para esse serviço.
ACÚSTICA E TANQUES DÁGUA. Quando da inauguração do Teatro Amazonas, não haviam ainda sido instalados a “caixa timpânica” (acústica) e os tanques dágua. O serviço foi feito por José Gomes da Rocha, em 1898, por hum conto, trezentos noventa e nove mil, oitocentos e quarenta mil réis (Rs. 1:399$840), fornecendo o governo o material, que constava de quatro tanques. Dois deles ficavam na parte superior acima da caixa e dois nas camarilhas, sob o palco. Os tanques de cima funcionavam como provisores de incêndio e para produzir efeitos artificiais de chuva no palco. Houve dessa experiência em 1907, 3 de julho, no final da representação da peça O HOMEM DAS MANGAS, opereta alemã de Blumentel com música do maestro português Tomás Del Negro. Na reforma havida no Teatro Amazonas (1929) não somente a acústica foi removida mas também os tanques dágua da parte superior, não mais colocados sob a desculpa de pesarem muito, forçando a estrutura de alvenaria. Na recuperação do Teatro mandada fazer sob rigorosa fiscalização, no governo do cel. João Walter de Andrade, foi adquirido na Áustria um sistema de acústica dado pelo melhor do mundo.
INAUGURAÇÃO DO TEATRO. Prevista para o dia 5 de setembro (aniversário da emancipação do Amazonas da Província do Grão-Pará) realizou-se efetivamente a 31 de dezembro de 1896, com a atuação da Companhia Lírica Italiana empresada pelo maestro maranhense Joaquim de Carvalho Franco, há muito tempo radicado em Manaus. O motivo da transferência foi o não acabamento das obras interiores, por isso a Companhia ficou autorizada a exibir-se no Teatro da Paz, em Belém do Pará. No ato da inauguração foram cantados apenas alguns números de óperas e canções. No dia 7 de janeiro de 1897 a Companhia Italiana estreou com a ópera GIOCONDA, de Amilcar Ponchielli.
Existe no museu do Teatro Amazonas imensa placa de mármore que autorizei a retirar, porque os autores dela, ignorando ainda a verdadeira história do teatro, se apressaram em festejar erradamente a passagem dos cinqüenta anos de existência do teatro.
DOMENICO DE ANGELIS. No dia 21 de agosto de 1897, o pintor italiano Domenico de Angelis assinou o primeiro contrato com o governo amazonense para a decoração do salão nobre do Teatro Amazonas, na importância de cento vinte e dois mil e duzentos francos (Fr. 122,200). Esse contrato foi substituído por outros dois, de 1898 e de 1899, com o sentido de ampliar as decorações e pinturas e ornamentos, respectivamente nas importâncias de cento vinte e sete contos, trezentos trinta mil e quinhentos (Rs. 127:330$500) e vinte e nove contos, cento cinqüenta e oito mil, seiscentos e oitenta réis (Rs. 29:158$680).
DECORAÇÕES E PINTURAS. De 1897 a 1899 foram feitas no salão nobre do Teatro Amazonas as seguintes obras e instaladas decorações e pintura.
a) “Plafond”, alegoria pintada por Domenico de Angelis, sob o título “A glorificação das Belas Artes na Amazônia”. Custo: 28:000 francos.
b) Falsos gobelins fixando aspectos naturais do Amazonas, usos, costumes, fauna e flora, além de óleo sobre tela referindo o episódio do salvamento de Ceci pelo índio Peri, quando o solar do pai daquela é tomado pelo fogo. A cena do romance de José de Alencar – O GUARANI, foi bem explorada. Custou 40:000 francos.
c) Um óleo sobre tela representando a segunda ponte de Manaus no dia de sua inauguração a cinco de julho de 1896.
d) Pinturas de circunstância representando a onça de malha grande cocando a embiara, uma capivara.
e) Outros detalhes: as garças pescadoras; borboletas azuis; palmaraes ao vento; além dos florões, ornamentálias no estilo clássico, anjos e numes.
f) Os bustos de gesso sobre portais custaram 16:000 francos.
g) Dezesseis colunas estucadas sobre armação de pedra e base de mármores de Carrara: 4:800 francos. Observação: veja-se o tópico: “Escadarias de mármore” para confronto.
h) Trinta e dois candelabros de cristal (dezesseis de suspensão), custo: 15:360 francos.
i) Soalho de “parquet”, custo 30:000 francos pelo fomecimento do material e 12:101 francos pela mão de obra. Total: 42:101 francos.
j) Dezesseis bases de mármore de Carrara para as colunas do salão nobre: 4:800 francos.
k) Assentamento dos espelhos (fornecidos pelo govemo) e candelabros de cristal por 780 francos.
O artista italiano Domenico de Angelis teve como ajudante a outros compatriotas, na qualidade de ajundantes, Silvio Centofanti, pintor e decorador que ficou residindo em Manaus; Artur Lucciani, o pintor Francesco Alegiani. O pintor Adalberto Andreis ainda restou em Manaus durante muito tempo, pintando quadros, mas acabou regressando à Itália antes da primeira guerra mundial. Os demais adaptaram-se à vida da região, constituíram família.
CUSTO DO TEATRO AMAZONAS. Antes da decoração do salão nobre, em 1896, o Teatro Amazonas estava avaliado na importancia de cinco mil, setecentos e nove contos, setecentos quatorze mil e cento vinte e hum réis (Rs$ 5.709:714,121). Após a decoração e os demais serviços que se arrastavam, calculou-se em mais de vinte mil contos de réis (Rs$20:000$000).
Teatro Amazonas (IV)
CALENDÁRIO TEATRAL. As principais companhias líricas e de comédias nacionais e estrangeiras, que operaram no Teatro Amazonas, especialmente contratadas ou em vilegiatura, foram, desde 1896 até 1937: Companhia Lírica Italiana (especialmente contratada para Manaus), 1896/1897, 1901. Companhia Tomba, italiana, de óperas, operetas e óperas cômicas, 1897, 1906. Companhia Dramática Dias Braga, portuguesa, 1897, 1900. Companhia de Zarzuelas, espanhola, 1898, 1905. Companhia de operetas Silva Pinto (do Teatro Recreio Dramático do Rio de Janeiro), 1898, 1906. Companhia de Operetas Italiana Coniglio & Valla, 1898/1899. Grande Companhia Dramática Italiana, 1899. Companhia Portuguesa de Operetas de Tomás Del Negro, 1899. Grupo Dramático Três Bemóis, 1899. Companhia Infantil do Rio de Janeiro, 1899. Companhia italiana de Operetas de Calil & Aprea, 1900. Grupo Taborda, do Grêmio Dramático Taborda (amazonense), 1900. Companhia Luso-Brasileira de Alves da Silva, 1900. Companhia Italiana de Óperas e Operetas, 1902. Companhia Dramática dos Pigmeus (os artistas eram todos do Rio Grande do Norte e não mediam mais de noventa centímetros de altura), 1902. Companhia do Teatro Principe Real de Lisboa, 1902. Companhia do Teatro São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro, 1902. Companhia de Arte Italo-Brasileira, 1902 Companhia de Operetas Mista, 1903. Companhia Dramática Cristiano de Sousa – Lucinda Simões, portuguesa, 1904, 1908. Grupo Dramático Pestana, amazonense, 1905. Companhia Lírica Francesa, 1906, 1907. Companhia do Teatro Águia de Ouro, portuguesa, 1907, 1908, 1913. Companhia Portuguesa de Operetas, 1907. Grupo Dramático Gil Vicente, amazonense, 1908. Companhia de Operetas, Mágicas e Revistas (mista), 1908. Companhia Dramática Portuguesa de Ângela Pinto, 1909. Companhia de Alves da Silva (mista), 1912. Trupe Zorda, comédias, 1915. Companhia Lucília Peres, comédias, 1916. Companhia de Revistas e Operetas de Antônio de Souza, 1916/1917. Companhia Maria Lina, 1923. Companhia Maria Castro, 1925. Companhia Lison Gaster, 1925. Companhia Álvaro Pires, 1937. As lacunas verificadas entre os anos 1896-1909 foram preenchidas por pequenas companhias de variedades ou de um só ator. De 1910 em diante as lacunas são mais acentuadas, por causa da crise econômica atravessada pelo Estado, todavia houve espetáculos isolados, apresentação de grupos locais principalmente com revistas, pois a decadência da borracha e a guerra primeira são causas primordiais do fechamento do Teatro Amazonas definitivamente para óperas líricas e companhias dramáticas estrangeiras.
O PROBLEMA DA COR ORIGINAL EXTERIOR DO TEATRO AMAZONAS. Após a recuperação, executada durante parte do governo do cel. João Walter de Andrade por artistas de renome internacional, a teoria de mal informados e de “historiadores” de orelha considerou estranha a pintura externa branco-cinza invés de uma presumida cor “rosa-imperial”, que seria a original. Todavia os que assim pensam (continuam pensando) jamais apresentaram um só documento escrito que nos convencesse a nós que passamos trinta anos pesquisando a historia do nosso teatro. Entretanto, logo de saída deveria ser dado conta daquele primeiro contrato com Celeste Saccardi onde se alude a “caiação e pintura”. Não poderia ser interna, já se vê, a caiação, que era aliás comum nos edificios europeus, à época. Segundo loco, a fachada do teatro Amazonas não estava nem rebocada em 1896, à data da inauguração, portanto ninguém, nem mesmo os falsos profetas poderia saber que era “cor-de-rosa-imperial”. Em terceiro lugar e por último, existe um documento positivo, ordem de serviço, mandando executar a pintura externa. Não elimino a possibilidade de haver algum dia, num dia longínquo, o Teatro Amazonas recebido pintura cor-de-rosa, amarelo, azul, preto encarnado, até mesmo cor de burro quando foge. Ele foi tão mexido, tão importunado na sua majestade, que não me admiraria haver alguém mandado brochar seus muros de cores diferentes da ordinária. Imagine-se que na administração Nelson de Melo, foi tentada uma camada de cimento cru porque na verdade nenhuma pintura de cor resiste à influência da luz solar nem à chuva. Desbota como desbotou a cor-de-rosa-imperial mandada aplicar quando da reforma por que passaria o Teatro na primeira gestão governamental do sr. Gilberto Mestrinho e na atual.
Alegou-se com muita freqüência (e a pergunta era de qualquer modo curiosa e estante) não se falar nunca em pintura a tinta importada. É verdade: mas falava-se em barricas de cal. No entanto, o curioso é que já existia funcionando em Manaus a FÁBRICA SILVÉRIO NERY, de propriedade de Toscano de Brito, que produzia os melhores tipos de fixadores. Na propaganda que se fazia da fábrica de tintas dizia-se que “a tinta amazonense isola por completo o calor da telha de zinco, do ferro, da madeira e da telha de barro, etc.” Isto em 1900 mais ou menos. Ora, se o documento que manda pintar o exterior do Teatro Amazonas por Mazzaloni não especifica realmente a cor da tinta a ser empregada, indica ser essa tinta da cor da que fora usada na pintura da ponte metálica ou ponte Benjamim Constant. Um documento explica o outro. E é no RELATÓRIO do cel. José Cardoso Ramalho Júnior que se encontra a referência à cor cinza com que se deu a primeira pintura da referida terceira ponte.
O QUE NAO É VERDADE. O Teatro Amazonas, antes de ser publicada a sua história em termos de documentos, era centro convergente das mais pitorescas afirmações, aqui retificadas.
a) A cúpula sempre foi fixa e não rotatória e faz parte do traçado original como se pode ver do documento existente no museu do mesmo teatro. A afirmação inidônia de que fora adquirida no govemo Ramalho Junior improcede por dois motivos: é insita na planta original e quando o cel. Ramalho Júnior aconteceu em substituição ao Dr. Fileto Pires Ferreira, ela já estava montada e o teatro inaugurado.
b) Não é verdade que artistas famosos, Caruso, Sarah Bemard, Eduardo Brazão, Pawlowa, houvessem atuado em qualquer época em Manaus, no Teatro Amazonas ou noutro qualquer. No recente filme de Wemer Herzog aparece um Caruso, contra o voto do historiador. Fui procurado pelos diretores do filme e avisei-os que era balela a invocação daqueles artistas famosos. Responderam-me exatamente que iriam colocar o Caruso “por ser muito comercial”. Dessa forma uma mentira assoalhada se propaga, contra a dignidade da história. Aliás o filme é uma droga.
c) Não é verdade que as obras de pintura existentes no salão nobre do Teatro Amazonas tivessem algum dia tido a cooperação de Capranezi. Todas as decorações e pintura são da exclusiva competência e autoria de Domenico de Angelis, conforme contratos assinados.
d) As colunas existentes no salão nobre do Teatro Amazonas nunca foram de mármore e somente as bases o são de legitimo Carrara, por contrato especial feito com o artista Domenico de Angelis.
e) Nem todos os artistas das companhias atuantes em Manaus, no Teatro Amazonas ou noutras casas de diversões públicas foram vitimados de febre amarela. Alguns se recuperaram nos hospitais da cidade. Acontece que o surto endêmico da febre amarela não vinha exclusivamente de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde a mortandade foi maior, mas vinha também da Europa culta e presumidamente saudável. Os países europeus se encarregavam de fazer proliferar a febre, mesmo o paludismo ou malária como era chamada na Itália. Todavia a companhia que mais sofreu (e os artistas não se cuidavam, viviam na boêmia) foi a de Calil & Aprea, em 1900, com nove baixas, seis provenientes da febre amarela, uma causada por ataque epiléptico seguida de queda e hemorragia; outra por crise cardíaca e a terceira – infecção intestinal. Com respeito às demais companhias que aqui estiveram até 1907, o índice de mortandade foi insignificante, naturalmente por causa das recomendações médicas. Apesar de tudo a atração era irresistível, voltavam companhias antes sacrificadas, reorganizavam-se com os destroços de outras desfeitas fora e rumavam para Manaus, desafiando o alarme injustificado. Naturalmente porque depois de 1900 as condições sanitárias eram outras e as perspectivas de lucros fabulosos mais tentadoras.
